- Sabes que te amo?
- Também eu.
- E imaginas poquê eu te amo?
- Não.
- Nem eu!
“A vida implica muita dor, e a única dor que podemos evitar é provavelmente a que resulta de tentar evitar a dor.”
R.D. Laing
R.D. Laing
sexta-feira, 26 de junho de 2009
domingo, 21 de junho de 2009
sexta-feira, 19 de junho de 2009
eu inacabada
Não sei escrever sobre mim. Tudo o que escrevo sou eu.
Enrodilho-me no labirinto das minhas cicatrizes. Perco o fio à meada. Perco-me.
Apresento-me com o trajo da cidade, calças, túnica, batom. Acho que fico bem na fotografia. Apresento-me no campo, suja de terra, despenteada. Confortável. Apresento-me nua. Desconheço-me.
Leio. Não sou a que escreve, mas a que lê.
Leio os livros, as pessoas, as situações. Leio para além das palavras, que as palavras não me chegam. Tudo é leitura.
terça-feira, 16 de junho de 2009
La Caja
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O Homem que Amo
Ultimamente tenho sonhado com ele. Variam os cenários e enredos dos sonhos, mas é sempre o mesmo: ele, inalcansável; eu a tentar alcançá-lo.Acordo dentro do sonho, sobressaltada. Acordo a chorar, ao nascer do dia. Levanto-me, dou duas ou três voltas pela casa, volto para a cama, tento dormir.
É difícil. Fico com a ideia dele entranhada na alma. Desassossego-me.
Hoje desisti de tentar adormecer e vim escrever. Tentar traduzir em palavras um amor. Como é que se faz isso? Como é que posso explicar que o amo como ele é? Que o conheço como as palmas das mãos?
Uma relação. Durou três ou quatro anos. Acabou.
Acaba sem raiva, sem zanga, sem desilusão. Só tristeza e dor.
A Madrasta (parte II)
Era um casal muito pobre, muito pobre. Ele militar, ela doente crónica sabe-se lá de quê. Duas filhas para criar e o dinheiro ia todo para os medicamentos.
Viviam na penúria. Todos os tostões contados, todos os tostões poupados.
Cagavam à vez. Primeiro o pai, depois a mãe, depois as filhas, tivessem vontade ou não. Quando um cagava, cagavam todos. Assim só gastavam uma descarga do autoclismo.
As filhas cresceram, estudaram e formaram-se em medicina. Abriram uma clínica na cidade de T. e, dizem as más-línguas, o pai esperava à porta do consultório para controlar os doentes que saiam e o dinheiro que entrava.
Mas as más-línguas dizem tantas coisas. Dizem até que, naquele tempo era hábito os tios e primos mais endinheirados irem às sobrinhas, jovens mais necessitadas, em troca de umas amêndoas na Páscoa, uma lembrança no Natal e uns tostões para os alfinetes.
Viviam na penúria. Todos os tostões contados, todos os tostões poupados.
Cagavam à vez. Primeiro o pai, depois a mãe, depois as filhas, tivessem vontade ou não. Quando um cagava, cagavam todos. Assim só gastavam uma descarga do autoclismo.
As filhas cresceram, estudaram e formaram-se em medicina. Abriram uma clínica na cidade de T. e, dizem as más-línguas, o pai esperava à porta do consultório para controlar os doentes que saiam e o dinheiro que entrava.
Mas as más-línguas dizem tantas coisas. Dizem até que, naquele tempo era hábito os tios e primos mais endinheirados irem às sobrinhas, jovens mais necessitadas, em troca de umas amêndoas na Páscoa, uma lembrança no Natal e uns tostões para os alfinetes.
Os tostões cresceram para milhões. Compravam ouro, jóias, casacos de pele, toalhas de mesa bordadas, lençóis de linho e outras coisas que não usavam nunca. Continuavam a cagar à vez. Literalmente, acumulavam merda!
domingo, 14 de junho de 2009
O que me faz sentir só?
Passo dias a dias sem outro contacto humano que não a internet e o telefone. Nestes dias feriados tive a companhia de uma amiga que veio passá-los comigo e desfrutar da paz do campo. Ontem tive a visita de um amigo, do meu filho e da namorada. Quando se foram embora, senti-me sozinha!
Senti vontade de um colo onde me enroscar e ficar a ver um filme. Senti a falta de sentir uma presença.
Há muitos anos, quando vivia com L. e ele foi trabalhar para um pais africano, senti muito a falta dele. Depois racionalizei essa sensação. Exactamente de que é que sentia a falta? De ouvir o ressonar dele quando me ia deitar? De tentar adormecer com o ruído da televisão na sala?
Nunca nos deitávamos juntos. Percebi que podia perfeitamente simular a presença dele, bastando para isso deixar a luz da sala acesa e a televisão ligada quando fosse dormir. Percebi que estava melhor sem essa presença ausente a que ele me habituara.
Agora é diferente. Sinto falta de algo que nem sei o que é!
Passo dias a dias sem outro contacto humano que não a internet e o telefone. Nestes dias feriados tive a companhia de uma amiga que veio passá-los comigo e desfrutar da paz do campo. Ontem tive a visita de um amigo, do meu filho e da namorada. Quando se foram embora, senti-me sozinha!
Senti vontade de um colo onde me enroscar e ficar a ver um filme. Senti a falta de sentir uma presença.
Há muitos anos, quando vivia com L. e ele foi trabalhar para um pais africano, senti muito a falta dele. Depois racionalizei essa sensação. Exactamente de que é que sentia a falta? De ouvir o ressonar dele quando me ia deitar? De tentar adormecer com o ruído da televisão na sala?
Nunca nos deitávamos juntos. Percebi que podia perfeitamente simular a presença dele, bastando para isso deixar a luz da sala acesa e a televisão ligada quando fosse dormir. Percebi que estava melhor sem essa presença ausente a que ele me habituara.
Agora é diferente. Sinto falta de algo que nem sei o que é!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
domingo, 7 de junho de 2009
A Horta
Dizem-me que tenho mãos verdes. Acho que não faço nada especial; as plantas crescem porque querem crescer, é essa a sua natureza. De qualquer modo, sempre me dei bem com as flores em vaso.
Quando mudei para o campo, decidi fazer uma horta. Pobre de mim, lancei mãos à obra sem saber que estava a entrar num maravilhoso mundo novo do qual não percebo nada, mesmo nada.
De início tudo parecia correr bem. Comprei sementes e coloquei-as em tabuleiros e pequenos vasos. Germinaram e transplantei-as para a terra.
Foi na terra que as coisas se complicaram; muitas plantas recusaram-se a crescer, outras desistiram e morreram… E eu sem saber porquê!
Todos os meus vizinhos têm hortas, plantam imensas batatas, algumas couves, alfaces, feijão.
Só um dos meus pés de feijão sobreviveu e está pequenino, raquítico, um quase nada comparado com os dos meus vizinhos.
Os pepinos desistiram de viver. As courgettes ainda resistem. Apenas os rabanetes parecem crescer bem.
Continuo a dedicar-me à horta um bocadinho todos os dias, mas percebo que preciso de ajuda, de dicas, que me ensinem o que fazer.
Quando mudei para o campo, decidi fazer uma horta. Pobre de mim, lancei mãos à obra sem saber que estava a entrar num maravilhoso mundo novo do qual não percebo nada, mesmo nada.
De início tudo parecia correr bem. Comprei sementes e coloquei-as em tabuleiros e pequenos vasos. Germinaram e transplantei-as para a terra.
Foi na terra que as coisas se complicaram; muitas plantas recusaram-se a crescer, outras desistiram e morreram… E eu sem saber porquê!
Todos os meus vizinhos têm hortas, plantam imensas batatas, algumas couves, alfaces, feijão.
Só um dos meus pés de feijão sobreviveu e está pequenino, raquítico, um quase nada comparado com os dos meus vizinhos.
Os pepinos desistiram de viver. As courgettes ainda resistem. Apenas os rabanetes parecem crescer bem.
Continuo a dedicar-me à horta um bocadinho todos os dias, mas percebo que preciso de ajuda, de dicas, que me ensinem o que fazer.
terça-feira, 2 de junho de 2009
O Rabanete
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Dia da Criança
Às três crianças da minha vida: o meu filho, que já não é criança, a Aurora, princesa do meu coração e à criança que há em mim!
Filho
A minha criança já não é criança. Tem 18 anos e é marinheiro.
Ontem fui buscá-lo ao Alfeite para um almoço em família. Trazia óculos escuros e roupa nova, que bom que é ter um ordenado para gastar…
Eu comprei uns óculos escuros a semana passada, pelo que comparamos os nossos óculos novos, os preços… coisas de mãe babada que tem um filho que já é grande.
Depois do almoço, enquanto regressávamos, ele adormeceu no automóvel. Ia atrás, entalado entre a mãe (eu) e a mãe do meu cunhado.
-Encosta a cabeça no meu ombro, disse-lhe. Tirei-lhe os óculos escuros da cabeça e amparei-o contra a trepidação do carro. Vi-nos aos dois, cabeça a amparar cabeça, pelo espelho retrovisor. O meu filho já grande era outra vez pequenino, o meu menino.
Ontem fui buscá-lo ao Alfeite para um almoço em família. Trazia óculos escuros e roupa nova, que bom que é ter um ordenado para gastar…
Eu comprei uns óculos escuros a semana passada, pelo que comparamos os nossos óculos novos, os preços… coisas de mãe babada que tem um filho que já é grande.
Depois do almoço, enquanto regressávamos, ele adormeceu no automóvel. Ia atrás, entalado entre a mãe (eu) e a mãe do meu cunhado.
-Encosta a cabeça no meu ombro, disse-lhe. Tirei-lhe os óculos escuros da cabeça e amparei-o contra a trepidação do carro. Vi-nos aos dois, cabeça a amparar cabeça, pelo espelho retrovisor. O meu filho já grande era outra vez pequenino, o meu menino.
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