“A vida implica muita dor, e a única dor que podemos evitar é provavelmente a que resulta de tentar evitar a dor.”
R.D. Laing

sábado, 17 de outubro de 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A minha casa

Um destes dias, disse a uma amiga que a minha casa tinha sido feita por alguém com duas mãos esquerdas. Estava a dourar a pílula! Na realidade, estou convencida que as mãos de quem fez a casa não interessam nada: a casa foi feita com os pés!
Quanto à cabeça do “arquitecto” responsável por esta construção, só me ocorre dizer que terá sido um mentecapto, mas talvez esteja a exagerar. Se calhar apenas estava com uma ressaca monumental, sofria de uma terrível enxaqueca ou teria sido vítima de uma lobotomia….
Chamem-me conservadora, mas acho que as casas devem ter um hall de entrada, por pequeno que seja, onde é conveniente ter um cabide para pendurar os casacos, um cesto para guardar os chapéus-de-chuva e, se sobrar espaço, um móvel para deixar a mala, as chaves de casa e as cartas que se trouxeram da caixa do correio. Deve também funcionar como zona de distribuição para as outras divisões da casa.
A minha casa tem duas entradas. A da frente dá directamente para a cozinha. A das traseiras deveria dar para a sala mas… Tiveram a bela ideia de fazer uma marquise antes da sala, o que me parece bem. Dá sempre jeito ter uma zona de tratamento de roupas, com a máquina de lavar e a tábua de passar a ferro. Pena que não possa receber ninguém em casa sem que os convidados tenham de passar por zonas menos nobres como é o caso da cozinha e da lavandaria!
De bom grado trocaria as duas entradas por apenas uma, desde que fosse decente, ou seja, que cumprisse as funções que eu, conservadoramente, considero apropriadas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

domingo, 6 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Procura de Emprego

O desemprego crescente obriga a soluções criativas!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

domingo, 23 de agosto de 2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Combater os Incêndios


RTP 2


Em homenagem a um amigo que me visitou e queria que eu o acompanhasse a ver ateletismo na televisão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Os tomates


Encontrei o pai da P.V.L. duas ou três vezes na vida. Um mulato bem-apessoado, alto e enxuto, com discursos de grande senhor. Honestidade; a sua maior virtude, o lema da sua vida.
Achei-o bonito e não pensei mais nele. Mas o L. dizia-me sempre: - Vês? Repara como as pessoas se gabam das exactas virtudes que não possuem!
Ao que parece o homem tinha feito fortuna com esquemas obscuros de vigarices e diamantes. Segundo o L. era um dos maiores vigarista à face da terra. Como é que podia falar de honestidade? Como?
Eu calava-me. Pensava: L., meu querido, o que tu não vês é que fazes exactamente o mesmo. Gabas-te do teu código de conduta, consideras-te uma pessoa correcta e, no fim de contas, és capaz dos actos mais vis!
Isto foi há muitos anos, quando eu era adolescente, numa outra vida, portanto.
Hoje lembrei-me desta história por causa de uma situação mais recente.
Há três ou quatro anos, conheci um senhor por quem me apaixonei. Um homem que se gabava de ter tomates! Qualquer pretexto lhe servia para dizer: Eu ponho os tomates em cima da mesa! Eu vou à luta!
Bonito. Como poderia não me apaixonar? Um homem com tomates, o sonho de qualquer mulher…
No início da nossa relação, lembro-me de ter comentado com uma amiga certas atitudes dele que me pareciam estranhas. – Ele é casado! - disse a minha amiga.
- Não, nem pensar! Se fosse casado dizia-me. Ele, logo ele, punha os tomates em cima da mesa e dizia!
Fomos jantar, eu e ele, o homem dos tomates. Lembro-me tão bem. Lembro-me do restaurante, da mesa em que ficamos, do que comemos e bebemos… Lembro-me da conversa.
Eu – Qual é o meu papel na tua vida?
Ele: - O teu!
Eu: - Boa resposta! É sonante, fica bem, e não significa nada. Vamos tentar outra vez: qual é o meu papel na tua vida?
Confrontado, ele dispôs-se a contar-me uma “panóplia” (foi a palavra que usou) de coisas sobre a vida dele. Falou, falou e falou, não se calava. Na torrente de palavras com que me inundou, mencionou um casamento, um projecto de divórcio, e muitas outras coisas, tantas que não as retive.
Nessa altura tive mais que pensar (dar-lhe com os pés ou continuar com aquele amor estéril) mas, mais tarde, lembrei-me da teoria do L.: onde é que estavam os tomates daquele homem? Só os tinha posto “em cima da mesa” quando eu o forcei a desvendar o jogo. Merda para os homens e mais os seus tomates!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

WC Cavalheiros

Apesar da chuva, no meu blogue o Verão segue em força com uma selecção de vídeos muito especial... Viva o Verão!

Compras

terça-feira, 4 de agosto de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Amor de Mãe

A Chimpanzé Anjana adoptou dois filhotes de tigre que tinham ficado órfãos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

terça-feira, 14 de julho de 2009

Se não é Um, é o Outro

Fiquei muito orgulhosa ao descobrir que o meu amigo G. é um virtuoso da guitarra. Bem... se não é ele, é o irmão gémeo!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Zombie

Tomo um ou dois comprimidos para combater a ansiedade. Fumo mais um cigarro. Outro dia que acaba. Apetece chorar. O dia de amanhã é mais outro dia. Não falo com pessoas, não vejo ninguém. Só os cães me consolam. Pobres bichos. Não vislumbro saída para a minha vida. Preocupo-me em vez de a desfrutar. Abstenho-me. Será isto a morte em vida?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

"Vai opinar longe!"


Ontem à noite, quando andava pela Net a pesquisar blogues de cães encontrei este http://dogsports.blogspot.com/ que mostra um vídeo lindíssimo de uma ninhada de 10 cachorrinhos. Adorei ver o vídeo, mas não pude deixar de comentar que, em Portugal, abatem por ano cerca de 10.00o cães e que me parece uma irresponsabilidade criá-los quando está mais que provado que não existem lares para eles.
A dona do blogue pesquisou o meu nome na Net e enviou-me, através de um fórum a mensagem que aqui transcrevo:
"Cara Inês Grey
Deduzo ter sido a Inês q comentou no meu blogue (comentário q já eliminei) a ninhada de 10 cachorros golden de uma amiga minha referindo o contraste com os 10 000 animais abandonados anualmente.
Cada um tem direito a sua opinião. No entanto, pedia-lhe o favor de a ir expressar noutro lugar que não o meu blogue!!!! Agradeço -lhe que evite futuros comentários no meu blogue onde por hábito, e independentemente de ser um blogue público, apenas os meus amigos pessoais fazem comentários. e não será este o caso.
Cps"
Eu respondi, não através do fórum, mas no blogue, o seguinte:
"Cara Martie,
Agradeço a sua resposta. Fui realmente eu que deixei o comentário.
Em relação à sua resposta quero dizer o seguinte:
A relação entre a ninhada de 10 cachorros golden da sua amiga e os 10.000 cães abandonados não é uma relação de contraste, mas sim, de causa efeito.
Claro que cada um tem direito à sua opinião. Eu pertenço a um grupo de pessoas que se esfalfa para ajudar animais em risco (cães e gatos) e que tem a convicção que existem demasiados cães e gatos em relação ao número de lares (de preferência bons lares) que existe. Quando refiro bons lares espero que não me tome por presunçosa, dou-lhe um exemplo: quando vou ao café passo por uma casa onde há um belíssimo golden acorrentado num espaço que tem cerca de 2,5 por meio metro. Moro aqui há três meses e, embora não vá todos dos dias ao café, só vi aquele cão solto por duas vezes. Parece-me jovem, apesar de não lhe ter visto os dentes, e vem sempre desafiar-me para brincar com ele. Tenho imensa pena dele, apesar de ter um lar onde é alimentado, não creio que seja um cão feliz.
Quanto ao facto de expressar a minha opinião no seu blogue, espero que a Martie compreenda não me faz muito sentido expressar a minha opinião junto daqueles que concordam comigo. Parece-me muito mais útil expressar a minha opinião junto daqueles que têm uma opinião diferente, no sentido de promover o debate de ideias e argumentos e de sensibilizar as pessoas para a causa animal (do modo como eu entendo a causa animal). Claro que não espero que todos venham a concordar comigo, mas se conseguir convencer uma única pessoa a minha vida já terá valido a pena.
Em relação a fazer comentários no seu blogue, como disse, é um blogue público. Caso deseje que apenas os seus amigos pessoais façam comentários poderá restringir o acesso ao seu blogue, ou eliminar a opção de comentar… Da minha parte, sinto-me perfeitamente à vontade para comentar e exprimir a minha opinião em qualquer blogue a que tenha acesso, desde que o faça educadamente e sem ofender ninguém. Faz parte da minha liberdade, não é?
No fundo, a Martie pedir-me para não comentar faz tanto sentido como se eu lhe pedisse para não promover a criação de cães... Ou seja, não faz nenhum sentido. Por certo a Martie terá tantos argumentos para apoiar a criação de bons exemplares caninos como eu tenho contra. Aliás, no meu comentário, apresentei 10.000 argumentos. Gostaria que tivesse respondido com outros tantos argumentos, mas apenas me pede que me coíba de comentar. Não tenciono fazê-lo.
Cumprimentos."

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Presa por um fio


Ando presa por um fio de esperança em que cada telefonema é a promessa de trabalho, o que significa dinheiro. Pego nesse fio de esperança e teço sonhos, fantasias bordadas a ponto cruz…
Ando presa por um fio. A mais leve brisa de contrariedades desequilibra-me. Caio das alturas da minha imaginação, espatifo-me na realidade.
Mulher, quarenta e um anos, sem habilitações, sem profissão, sem emprego. Sem saber de onde virá o próximo depósito na minha conta bancária. Sem saber para onde me virar.
Ando presa por um fio…

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Arrulhar

- Sabes que te amo?
- Também eu.
- E imaginas poquê eu te amo?
- Não.
- Nem eu!

domingo, 21 de junho de 2009

Verão

Para comemorar o início do Verão, apresento um vídeo parvo como a estação!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

eu inacabada


Não sei escrever sobre mim. Tudo o que escrevo sou eu.
Enrodilho-me no labirinto das minhas cicatrizes. Perco o fio à meada. Perco-me.
Apresento-me com o trajo da cidade, calças, túnica, batom. Acho que fico bem na fotografia. Apresento-me no campo, suja de terra, despenteada. Confortável. Apresento-me nua. Desconheço-me.
Leio. Não sou a que escreve, mas a que lê.
Leio os livros, as pessoas, as situações. Leio para além das palavras, que as palavras não me chegam. Tudo é leitura.

terça-feira, 16 de junho de 2009

La Caja



Quatro Mulheres e Um Morto
Este filme é uma obra de arte. Nada está a mais, nada é de menos.
Um enredo que se vai desvendando aos poucos, enquanto nos deixamos envolver na força e mistério das personagens femininas. Um pedaço de dor, uma pitada de humor. Amor também.
Adorei ver.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Homem que Amo

Ultimamente tenho sonhado com ele. Variam os cenários e enredos dos sonhos, mas é sempre o mesmo: ele, inalcansável; eu a tentar alcançá-lo.
Acordo dentro do sonho, sobressaltada. Acordo a chorar, ao nascer do dia. Levanto-me, dou duas ou três voltas pela casa, volto para a cama, tento dormir.
É difícil. Fico com a ideia dele entranhada na alma. Desassossego-me.
Hoje desisti de tentar adormecer e vim escrever. Tentar traduzir em palavras um amor. Como é que se faz isso? Como é que posso explicar que o amo como ele é? Que o conheço como as palmas das mãos?
Uma relação. Durou três ou quatro anos. Acabou.
Acaba sem raiva, sem zanga, sem desilusão. Só tristeza e dor.

A Madrasta (parte II)

Era um casal muito pobre, muito pobre. Ele militar, ela doente crónica sabe-se lá de quê. Duas filhas para criar e o dinheiro ia todo para os medicamentos.
Viviam na penúria. Todos os tostões contados, todos os tostões poupados.
Cagavam à vez. Primeiro o pai, depois a mãe, depois as filhas, tivessem vontade ou não. Quando um cagava, cagavam todos. Assim só gastavam uma descarga do autoclismo.
As filhas cresceram, estudaram e formaram-se em medicina. Abriram uma clínica na cidade de T. e, dizem as más-línguas, o pai esperava à porta do consultório para controlar os doentes que saiam e o dinheiro que entrava.
Mas as más-línguas dizem tantas coisas. Dizem até que, naquele tempo era hábito os tios e primos mais endinheirados irem às sobrinhas, jovens mais necessitadas, em troca de umas amêndoas na Páscoa, uma lembrança no Natal e uns tostões para os alfinetes.
Os tostões cresceram para milhões. Compravam ouro, jóias, casacos de pele, toalhas de mesa bordadas, lençóis de linho e outras coisas que não usavam nunca. Continuavam a cagar à vez. Literalmente, acumulavam merda!

domingo, 14 de junho de 2009


O que me faz sentir só?
Passo dias a dias sem outro contacto humano que não a internet e o telefone. Nestes dias feriados tive a companhia de uma amiga que veio passá-los comigo e desfrutar da paz do campo. Ontem tive a visita de um amigo, do meu filho e da namorada. Quando se foram embora, senti-me sozinha!
Senti vontade de um colo onde me enroscar e ficar a ver um filme. Senti a falta de sentir uma presença.

Há muitos anos, quando vivia com L. e ele foi trabalhar para um pais africano, senti muito a falta dele. Depois racionalizei essa sensação. Exactamente de que é que sentia a falta? De ouvir o ressonar dele quando me ia deitar? De tentar adormecer com o ruído da televisão na sala?
Nunca nos deitávamos juntos. Percebi que podia perfeitamente simular a presença dele, bastando para isso deixar a luz da sala acesa e a televisão ligada quando fosse dormir. Percebi que estava melhor sem essa presença ausente a que ele me habituara.

Agora é diferente. Sinto falta de algo que nem sei o que é!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Dia Mundial do Oceanos

Nem carne, nem peixe. Vegetarianismo é a solução!

domingo, 7 de junho de 2009

A Horta

Dizem-me que tenho mãos verdes. Acho que não faço nada especial; as plantas crescem porque querem crescer, é essa a sua natureza. De qualquer modo, sempre me dei bem com as flores em vaso.
Quando mudei para o campo, decidi fazer uma horta. Pobre de mim, lancei mãos à obra sem saber que estava a entrar num maravilhoso mundo novo do qual não percebo nada, mesmo nada.
De início tudo parecia correr bem. Comprei sementes e coloquei-as em tabuleiros e pequenos vasos. Germinaram e transplantei-as para a terra.
Foi na terra que as coisas se complicaram; muitas plantas recusaram-se a crescer, outras desistiram e morreram… E eu sem saber porquê!
Todos os meus vizinhos têm hortas, plantam imensas batatas, algumas couves, alfaces, feijão.
Só um dos meus pés de feijão sobreviveu e está pequenino, raquítico, um quase nada comparado com os dos meus vizinhos.
Os pepinos desistiram de viver. As courgettes ainda resistem. Apenas os rabanetes parecem crescer bem.
Continuo a dedicar-me à horta um bocadinho todos os dias, mas percebo que preciso de ajuda, de dicas, que me ensinem o que fazer.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O Rabanete


Junta-se uma semente de rabanete, água e terra. O resultado é miraculoso: um rabanete!
Eis o primeiro “fruto” da minha horta.
Comi-o hoje à tarde, numa sandes de queijo e pepino. Delicioso. O melhor rabanete que já comi!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dia da Criança

Às três crianças da minha vida: o meu filho, que já não é criança, a Aurora, princesa do meu coração e à criança que há em mim!

Flores


Filho

A minha criança já não é criança. Tem 18 anos e é marinheiro.
Ontem fui buscá-lo ao Alfeite para um almoço em família. Trazia óculos escuros e roupa nova, que bom que é ter um ordenado para gastar…
Eu comprei uns óculos escuros a semana passada, pelo que comparamos os nossos óculos novos, os preços… coisas de mãe babada que tem um filho que já é grande.
Depois do almoço, enquanto regressávamos, ele adormeceu no automóvel. Ia atrás, entalado entre a mãe (eu) e a mãe do meu cunhado.
-Encosta a cabeça no meu ombro, disse-lhe. Tirei-lhe os óculos escuros da cabeça e amparei-o contra a trepidação do carro. Vi-nos aos dois, cabeça a amparar cabeça, pelo espelho retrovisor. O meu filho já grande era outra vez pequenino, o meu menino.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Leio como Respiro

Lembro-me do primeiro livro que li. Chamava-se “Noddy no País dos Brinquedos”. Foi escrito por uma senhora que muito amenizou as agruras da minha infância: Enid Blyton.
Lembro-me de o ler, é uma memória em segunda mão, mas lembro-me. O espanto, a felicidade de conseguir juntar as letras e formar palavras, de deixar de depender das minhas irmãs para me contarem histórias. Tinha acabado a primeira classe e já conseguia ler. A partir desse momento, nunca mais parei.
Não imagino como terias sido a minha vida se os livros não existissem. Quando as coisas estavam negras, quando as situações eram insuportáveis, os livros eram a portas para outros mundos, mundos onde os meus problemas não existiam, onde aconteciam aventuras, onde as histórias acabavam sempre bem.
Se é verdade que a história da minha vida dava um livro, ou mesmo dois ou três, é ainda mais verdade que não teria sobrevivido às histórias da minha vida se não tivesse livros para me consolarem e me transportarem para longe de mim.

Hoje, encontro nos livros personagens, histórias, imaginários, visões do mundo, mas, principalmente, o prazer de ler.

Recentemente uma amiga veio visitar-me e trouxe-me uma mala cheia de livros. É que morar no campo tem os seus inconvenientes, um deles é não ter uma biblioteca perto.
Para quem lê como eu – eu leio como respiro – é impossível pensar em comprar todos os livros que quero ler. Durante anos fui visita assídua da biblioteca mais próxima, agora, dependo dos amigos para me emprestarem livros.
Na mala estava um livro para crianças intitulado “Cão Cabeçudo” de Daniel Pennac. Adorei. Adorei a história, chorei que me fartei. Adorei a relação/visão do senhor Pennac com os cães.
No sábado passado, vim à cidade e uma amiga pediu-me que devolvesse à biblioteca uns livros que ela tinha trazido. Entre eles estava “A Fada Carabina” do senhor Pennac. A edição tinha na capa um desenho que lembrava as ilustrações dos livros infantis. Não resisti. Li-o num dia.
Na segunda-feira (continuo na cidade) fui à biblioteca e trouxer todos os livros que encontrei do Daniel Pennac. Infelizmente só dois. “A Vendedora de Prosa” que li hoje e adorei, e “Excelentíssimas Crianças” que vou ler amanhã, mas já estou a adorar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Crianças

Uma rotina diferente. De manhã, levantar cedo e tratar do pequeno-almoço das crianças. O Rafael cuida de si, eu cuido da Bia. Levo-a à escola. Quando regresso o Rafael já seguiu para o liceu. Faço as camas, lavo a loiça, e tenho o resto do dia para mim, tirando algumas ocasiões em que tenho de fazer compras ou ir à farmácia.
Leio muito. Sou frequentadora assídua da biblioteca municipal.
Pelas 5 e meia vou buscar a Bia à escola. Lanche, jantar, escovar os dentes. Uma história para dormir, leio para a Bia mas o Rafael também gosta de ouvir.
Às 10 horas estão a dormir. Como o Rafael dorme na sala, o meu acesso à casa fica bastante limitado.
Fico no meu quarto com um livro, às vezes com o computador. Sento-me na cama com o computador em cima das pernas. Não é muito cómodo. Desisto. Fumo um cigarro à janela e deito-me com um livro. Amanhã acordo cedo.

domingo, 24 de maio de 2009

A Madrasta (parte I)

A minha madrasta já está reformada. Foi médica de aldeia. De manhã dava consultas no posto médico de T. e à tarde fazia domicílios. De quinta à tarde a sexta de manhã fazia banco nas urgências do hospital de S.
Os doentes traziam-lhe muitos presentes, coisas da terra, da horta, da capoeira. Eram as couves, as alfaces, as batatas, as cenouras, a fruta, as galinhas, os coelhos, o pão cozido no forno de lenha… Quase que dava para governar uma casa sem fazer compras. Felizmente! Porque a minha madrasta odiava gastar dinheiro. Era uma coisa que lhe estava no sangue, gastar dinheiro era ir contra a sua natureza, a evitar a todo o custo.
Ora com tantas ofertas que recebia, quase não tinha de fazer compras, mas faltava o quase… Era nesse quase que a minha madrasta demonstrava o seu espírito criativo.
A manteiga para barrar o pão cozido a lenha, a senhora doutora trazia do hospital, em pacotinhos individuais daqueles que se usam nos restaurantes. Aproveitava e trazia também os pacotinhos de doces, compotas e açúcar. Para quê comprar se, na cantina do hospital, bastava tirar?
Em relação ao papel higiénico, esta senhora revelava possuir, não só criatividade, mas uma enorme paciência. Nas casas de banho do hospital e do posto médico, fazia rolinhos de papel higiénico com os quais fornecia as casas de banho da sua própria casa. Qualquer outra pessoa tiraria umas mãos cheias de folhas de papel que amarfanharia dentro da mala, mas a minha madrasta era uma profissional; fazia uns rolinhos muito certinhos e apertados.
O dinheiro que ela ganhava a trabalhar no hospital, não sei, mas poupar, poupava imenso.
O hospital também resolvia a questão dos banhos. Era com a água quente do hospital que ela e eu tomávamos o nosso banho semanal. Semanal, sim, pensam o quê? A água custa dinheiro, e o gás ainda mais. Um banho por semana e já tinha muita sorte, se não fosse o hospital havia de lavar-me com água fria e um pano húmido. Dou graças pelo hospital com a sua casa de banho com chuveiro e água quente e sabonete. Ah, claro que os sabonetes lá de casa também eram fornecidos pelo hospital. Por mais impostos que pague, nunca poderei retribuir o que o Serviço Nacional de Saúde fez por mim quando era criança.

Amor

Foi na época do apartheid. Lembro-me de desejar ser feiticeira e fazer um feitiço anti-racismo; todos os filhos de brancos nasceriam negros, e os filhos de negros nasceriam brancos.
Hoje li um texto lindíssimo que a Isabela publicou no seu blogue em que deseja que os humanos tenham crias de outras raças e que seres de outras raças tenham crias humanas. A ideia comove-me. Não quero saber de pormenores técnicos absurdos, este é o mundo das maravilhas, e a maravilha do mundo é o amor.
Chamem-me lírica, ingénua, parva… A minha convicção é profunda: o amor é a única via. A via para o respeito, para a dignidade, para a compreensão, para a felicidade…
Não é por acaso que os gurus e profetas de todos os tempos têm tentado encaminhar a humanidade para a via do amor. Infelizmente sem sucesso! Quando disseram “amai-vos uns aos outros”, os homens debateram-se com a questão de quem eram os “uns’ e quem seriam os “outros” e esqueceram-se do amor. É que o amor elimina a fronteira entre uns e outros, reunindo todos num único “nós”.
Eu, que sou individualista até à medula, adoro a ideia de “nós”. Quando nós formos todas as pessoas, todas as raças, todos os credos, todos os seres…

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Penetrocentrismo


Estava eu a fazer a ronda pelos meus blogues favoritos, quando encontrei esta palavra. Penetrocentrismo. Pesquisei no Google e deparei-me com um texto muito interessante.
Ainda sobre sexo, na revista Pública de 17 de Maio, numa entrevista em que Isabel Leal diz que ter orgasmos dá uma “trabalheira desgraçada”, encontrei outra palavra que me ficou no ouvido: orgásmicas. Cito: “Há mulheres que não são orgásmicas.”
Encantada como estou com estas palavras, não resisto a declarar: sou imensamente orgásmica, mas os parceiros penetrocentristas aniquilam o todo o meu potencial orgástico e deixam-me indiferente. Digo mais: prefiro masturbar-me a lidar com o penetrocentrismo de alguns parceiros.
Sinto que realizei o meu objectivo: em menos de três parágrafos consegui utilizar as palavras penetrocentrismo e orgásmica um porradão de vezes!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Horta

Quando me mudei para o campo, decidi fazer uma horta.
Comprei sementes e tudo e mais alguma coisa, desde melões a flores. Semeei em pequenos recipientes e em tabuleiros, com uma camada rasa de terra ou com algodão húmido.
Alegrei-me com a velocidade com que os agriões cresciam. Esqueci-me os nomes das sementes que plantei.
Veio a chuva e arrasou com quase tudo.
Sobreviveram as beterrabas, as courgettes, os pepinos, o feijão e o grão.
Assim que a chuva parou, achei que era altura de plantar na terra. Queria plantar uma horta bonita, com os carreirinhos bem alinhados, daquelas que dá gosto ver. Tentei. O resultado foi uma horta mal amanhada e sem carreiros definidos. Mas, para já, as plantas não morreram, alguns feijoeiros até cresceram bastante.
Amanhã vou plantar na terra as cenouras e o alho francês.
Cá para mim, esta horta ainda vai dar frutos, perdão, legumes!

Iami

Massa folhada muito estaladiça, espinafres, chevre e mozzarella. Uma delícia. Se continuo a cozinhar assim chego aos 100kg não tarda!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Família

marcha do Dia do Animal, 2008
Há tempos atrás discutia-se a suspeita de um primo toxicodependente abusar sexualmente de uma faz filhas. Muito em segredo, “não digas à outra que te contei”, “não contes a ninguém”…
Os zunzuns pararam quando nos apercebemos que a criança tinha uma grande imaginação e misturava histórias da televisão com as da vida. Ainda bem.
Por essa altura, a minha irmã Josefa fez um comentário que nunca esqueci. Tinha lido não sei onde que a família nos proporciona a experiência de lidar com pessoas com quem nunca nos relacionaríamos se não fossem da família, claro está!
Por exemplo, esse meu primo, mesmo não sendo um abusador sexual, que acredito que não é, não tem interesse nenhum como pessoa. É básico, elementar, trabalho-casa-casa-trabalho, não dá duas para a caixa. Encontramo-nos nas festas de aniversário e de Natal. Pergunto-lhe como está e diz sempre que está bem, mesmo quando o corpo e os olhos mostram os estragos da droga. Digo-lhe que se cuide e desejo-o sinceramente mas não serve de nada e a nossa conversa fica por aí.

A minha paixão de vida (os animais) proporcionou-me uma nova família. Chamo família por causa do comentário da Josefa, são pessoas com nunca escolheria relacionar-me, faço-o apenas porque partilhamos a mesma paixão. Somos aqueles (principalmente aquelas) que transportamos água e ração para cão na bagageira do carro, latas de comida para gato nas malas, biscoitos para cão nos bolsos.
Nesta nova família fiz alguns amigos, pessoas com quem tenho em comum alguns aspectos como idade, nível socioeconómico, nível cultural... Também conheci pessoas nos antípodas de mim; tias da Lapa, mulheres de chinela no pé, senhores professores doutores, moradores do bairro da Belavista em Setúbal…Encontramo-nos e falamos dos bichos, trocamos emails com fotos de animais em risco, combinamos ir buscar um cão ali ou entregar um gato acolá. Funcionamos. Colaboramos. Resolvemos situações.
Eu gosto, sinto-me bem, principalmente, sinto-me grata pela oportunidade de me relacionar com pessoas que nunca escolheria para o meu círculo de amizades.

domingo, 17 de maio de 2009

Magda e Mouro - o casamento


Discutiam.
Todas as manhãs de segunda a sexta, a mesma discussão.
– Que camisa visto hoje? Perguntava ele.
– A azul
- Porquê a azul? E se me apetecer vestir a branca, ou a outra das risquinhas?
Eu permanecia deitada e sabia porquê. Ela levantava-se mais cedo para passar a ferro a roupa que levariam para o emprego. Passava uma camisa para ele, uma blusa para ela.
A discussão de todos os dias começava na camisa. Era sempre o mesmo. Eu achava que ele queria ter muitas camisas engomadas, penduradas no roupeiro, à disposição, prontas para serem escolhidas e vestidas. Não compreendia porque ela não lhe respondia
- Olha, passa tu as tuas camisas, que eu tenho mais que fazer. Tenho de dar o pequeno-almoço às crianças, vesti-las e levá-las lá a baixo até a carrinha do infantário chegar.
Mas nessa altura as coisas não eram assim. Quando chegavam a casa, ao fim do dia, ele sentava-se na sala a ler o jornal ou a ver televisão. Ela ia para a cozinha tratar do jantar.
- Porque é que o jantar é arroz? – Ele nunca queria arroz, não gostava de arroz, queria batatas fritas. Ela estava cansada e não queria fritar batatas. Queria despachar-se, acabar com os afazeres e meter-se na cama. Cozia batatas e ele perguntava:
- Batatas cozidas? Outra vez? Porque é que fazes sempre batatas cozidas?
Mais tarde, teria eu 12 ou 13 anos, havia mais dinheiro e vinha uma vizinha durante a tarde fazer o jantar. Eu arrumava a casa, fazia as camas, despejava os cinzeiros, tratava das compras.
Ela chegava e dizia:
- Estou mal disposta. Dói-me a cabeça. Nem quero jantar, vou já para a cama.
Depois:
- Se me trouxesses um pratinho de sopa num tabuleiro… só para não tomar os comprimidos com o estômago vazio…
Depois:
- A sopa soube-me bem. Se me fizesses uma sandezinha… ou talvez um pratinho dessa carne à jardineira que cheira tão bem…
Eu fazia. Levava-lhe aliviada por não estarem a discutir. Só queria despachar-me, acabar com os afazeres domésticos e refugiar-me no meu quarto a ler ou a escrever.
Acho que foi por essa altura que ela começou a tomar comprimidos. Não tenho a certeza, a minha visão das coisas era infantil e desfocada.

O Blogue


Um amigo dizia-me “tenho um blogue, vai lá ver…” mas eu não ia. Não sei porquê não se me dava para lá ir, lê-lo, logo a ele que escreve tão bem. A cena dos blogues não me entrava.
Mais tarde, descobri o “Mundo Perfeito” e tornei-me leitora assídua. A Isabel é uma excelente escritora e lê-la melhorava os meus dias. Comecei a compreender a “cena dos blogues” mas sem vontade de ir mais longe que o “Mundo Perfeito”, esse chegava-me.
Ainda mais tarde, uma amiga disse-me “devias ter um blogue para divulgares o teu trabalho e angariares mais clientes. Eu crio-to.” E criou.
Resolvi dar a esse blogue um carácter dinâmico e intimista, que ultrapassasse o aspecto meramente profissional. Tem sido um êxito. Tenho mais leitores que alguma vez imaginei ter. Além disso recebo comentários muito estimulantes. Está a ser uma experiência muitíssimo gratificante.
Ganhei vontade de escrever, de partilhar o que se passa na minha cabeça, na minha vida… Uma vez que esse blogue se cinge apenas a aspectos da minha profissão, criei o “nomes de mim”, blogue anónimo, onde sinto a liberdade de dizer tudo o que me dá na gana.
Não tenho leitores, é verdade, mas não faz mal, tenho mais liberdade ainda!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

“Se o teu cão pensa que és o maior, não procures uma segunda opinião”

Esta frase surgiu num email que recebi e deixou-me a pensar.
O facto de viver rodeada de cães, que acham que sou “a maior”, tem sido extremamente benéfico para a minha auto-estima!
Confesso que anos e anos de psicoterapia ajudaram, mas os cães…os cães adoram-me gratuitamente durante todas as horas do dia, toda a semana, sem feriados nem férias! Não há psicoterapeuta que lhes chegue aos calcanhares!

Uma auto-estima saudável é fundamental para relações saudáveis. Não preciso de tentar agradar a ninguém porque não sinto necessidade que gostem de mim – já tenho os cães. Depois, àqueles que gostam exijo um amor igualmente puro e sem limites: que gostem de mim como sou sem esperarem receber nada em troca. Não é que não dê, é só para não estarem à espera porque até posso não dar!

Outra vantagem de viver com cães, que me massajam o ego constantemente, é que estou muito mais assertiva nas minhas relações. Digo o que quero e como quero. Se a resposta for negativa, não me magoa nem me preocupa. Aguento muito bem meia dúzia de “nãos” por dia, porque tenho centenas de “sins” constantemente no olhar dos meus cães!

O vírus H1N1 ou a Teoria da Conspiração

http://www.youtube.com/watch?v=0K2LdGUca9w
(Ver vídeo)

Segundo este vídeo, (e se pesquisarmos há mais vídeos com conteúdos convergentes) o vírus do gripe A foi produzido em laboratório e está a ser disseminado no mundo com vista ao enriquecimento desmesurado de produtores de vacinas.
Sei que há sempre uma teoria da conspiração atrás de cada desgraça que acontece e poderia ser tentada a não dar importância a esta comunicação, mas… sei também que a realidade supera a imaginação e não me custa acreditar que um fortíssimo lobby farmacêutico não tenha pejo em causar uma mortandade bestial só para enriquecer desmesuradamente.
Este é o mundo em que vivemos. Este é o mundo que construímos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Telejornal ou as cuequinhas da aluna da escola de Fernão Ferro


Todas as noites tento assistir ao telejornal, mas não consigo fazê-lo por mais de cinco minutos. As notícias entediam-me, não há volta a dar.
Hoje, numa das minhas tentativas quotidianas, ouvi uma notícia que me espantou: a escola secundária de Fernão Ferro recomenda aos alunos que se vistam com decoro, nomeadamente que não usem grandes decotes, tops curtos e mini saias. Acrescentam ainda que a associação de pais está de acordo com estas recomendações. Ao que parece, alguns professores sentiam-se incomodados por ver as cuequinhas das alunas que usavam mini-saia. Uma funcionária chegou ao ponto de pedir a uma aluna que trocasse o top (demasiado reduzido) por uma t-shirt.
É por notícias assim que diariamente continuo a tentar assistir ao telejornal!

Gripe A

«A única coisa que se pode dizer com certeza sobre os vírus da gripe é que eles são inteiramente imprevisíveis» Margaret Chan, Directora-Geral da OMS

terça-feira, 12 de maio de 2009

O Vizinho


O cão passou a noite a uivar e a ganir. Eu estava duplamente desesperada; desesperada com os uivos do cão que não conseguia calar, desesperada por incomodar a vizinhança. Do andar de cima chegava-me o som de qualquer coisa a bater no chão a cada gemido do cão.
Comecei o dia a deitar na caixa de correio do andar de cima um bilhete de desculpas. À noite o vizinho chamou-me ao portão. Vinha pedir desculpas pelas batiditas no chão. Ai que vizinho! Além de bonitão e charmoso é simpático! E gosta de cães!
Se a vida fosse um livro, de certeza que ia ter um romance com o vizinho. Se fosse um filme (daqueles que passam na televisão ao fim de semana), havíamos de casar e ser felizes para sempre.
Mas como a vida é só vida, ele tem uma senhora cujo sono é sagrado, e por isso é que bateu no chão, mas está arrependida e pede desculpa.

Chicken-a-la-Carte

http://www.cultureunplugged.com/play/1081/Chicken-a-la-Carte

Esta história não é sobre mim. É uma história sobre nós os que vivemos deste lado do mundo, os que somos ensinados a perpetuar os gestos sem nos interrogarmos sobre o seu significado, os que fintamos a morte e não compreendemos a vida, os que não vivemos!
Este é um filme sobre comida. Todos comemos, mas nem todos comemos da mesma maneira. Muitos de nós nunca se questionaram sobre a maneira como comemos, o que comemos. Apenas perpetuamos os hábitos alimentares dos nossos pais.
Somos perpetuadores. Não questionamos a vida, os gestos, os hábitos… É uma pena!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A realidade da ex-dependência

A ex-dependência não existe. Uma vez dependente, dependente para toda a vida!
Aprendi muito com os AA. Não que alguma vez tenha frequentado, porque não é o álcool a minha dependência. Mas, há muitos anos, estava a Magda sóbria há dois anos, os AA realizaram uma reunião internacional no Algarve. A Magda foi e convidou-me e a outra irmã nossa a acompanhá-la.
Adorei esse fim-de-semana. Ficámos instaladas no hotel onde se realizava o encontro. Havia reuniões de AA, algumas abertas a não alcoólicos, reuniões de famílias de alcoólicos e, o que gostei mais, as conversas informais entre as pessoas que se cruzavam no hotel ou que se sentavam à mesma mesa às refeições.
Eram conversas cheias de significado. Havia um ambiente que permitia a pessoas que não se conheciam de lado nenhum falar sobre a sua intimidade, partilhar a experiência da recuperação ou a experiência do convívio com alcoólicos.
Lembro-me de um senhor que me disse que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
Nessa altura, vivia profundamente mergulhada na minha doença: a dependência de relações. Li um livro sobre isso chamado “Amar Demais”. É um nome bonito para chamar a uma coisa feia.
Esse livro mudou a minha vida no sentido que foi o primeiro passo do meu processo de cura. Quando percebi que o que se passava comigo, não se passava só comigo, que era uma doença, que tinha um nome, que tinha uma cura… foi uma alegria tão grande!
Atirei-me para a recuperação com quantas forças tinha. Foi difícil, doeu muito, mas senti sempre que a dor era insignificante quando comparada à liberdade que ganhava a cada passo.
Foram anos de psicoterapia. Aprendi muito. Percebi que nunca poderia mudar o meu passado, mas estava nas minhas mãos decidir o meu presente.
Desde essa época até hoje, a minha vida mudou radicalmente. O mais importante: eu mudei. Não há cura sem mudança. Esta é a lição principal de qualquer recuperação.

domingo, 10 de maio de 2009

Domingo à Tarde

Há muitos anos, li um livro chamado “Domingo à Tarde” sobre alguém que estava a morrer. A narrativa era percorrida por uma sensação de tempo suspenso e tristeza.
Ao longo da minha vida, tive muitas vezes essa sensação. Principalmente quando era criança e ia passar o fim-de-semana com as minhas irmãs, ao domingo à tarde sentia a tristeza da antecipação do momento em que voltaria para casa do meu pai e da minha madrasta.
Mais tarde senti o mesmo com o meu filho, antes do processo de adopção ser iniciado, quando ele ainda estava no orfanato e vinha passar os fins-de-semana comigo. Ao domingo, depois do almoço, a expressão dele fechava-se, os olhos perdiam o brilho, e eu sabia muito bem o que ele estava a sentir.
Hoje sinto saudades do meu filho. O processo de adopção já foi concluído, as traquinices da infância já passaram há tanto tempo que já lhes consigo achar graça. As crises da adolescência já pertencem ao passado. Ele cresceu, foi para a Marinha e sinto a falta dele.

Fumar


Fumo desde os 14 anos. Claro que, na altura, não fumava como uma besta como fumo hoje. Era um cigarrito por dia, às escondidas, às vezes nem isso.
Tinha decidido que quando fizesse 10 anos de fumo, deixaria de fumar, mas aos 24 estava tão viciada que nem tentei. Não quer dizer que não tenha tentado deixar de fumar algumas vezes, cheguei a estar mais de 3 dias sem fumo, mas sempre a pensar no cigarro. Cada vez que tentava descobria que toda a minha vida se desenvolvia à volta do acto e fumar. Se vou começar a fazer alguma coisa, acendo um cigarro. Se estou a fazer alguma coisa, faço um intervalo para fumar um cigarro. Se acabo de fazer alguma coisa, acendo mais um cigarro enquanto penso o que vou fazer a seguir.
Claro que não subo mais de três degraus sem arfar, por vezes, fico a arfar mesmo sem subir nenhum degrau. Uma vez tive que subir até a um oitavo andar porque o elevador estava avariado e achei que ia morrer! Quando atendo o telefone, as pessoas perguntam-me se vim a correr. Também há aqueles que dizem que tenho uma voz muito sexy e que devia trabalhar nas linhas eróticas.
A última vez que deixei de fumar estava doente com uma gripe de tal modo forte que… nem conseguia fumar!
É um suicídio. Com excesso de peso, hiper tensão arterial, asma, bronquite crónica, fumar é um suicídio. Ainda para mais um suicídio estúpido; tenho a certeza que há maneiras mais interessantes de uma pessoa se matar.
Decidi deixar de fumar. Optei pelo método da hipnose, porque me parece o mais fácil. Pesquisei “deixar de fumar” e “hipnose” na internet e telefonei para os vários gabinetes para saber mais informações. Tive de fazer um esforço imenso para não acender um cigarro enquanto falava ao telefone. Mas está decidido e está marcado. Na próxima sexta-feira, deixo de fumar.

Touradas

Com toda a polémica que está a acontecer sobre as touradas, quero esclarecer: não sou contra as touradas, sou contra a utilização de touros, cavalos e, já agora, quaisquer outros animais (não racionais) nas touradas!

sábado, 9 de maio de 2009

Arquitecturas


Moro numa aldeia. Depois de 40 anos a viver na cidade, mudei-me para cá no início de Março. Estou a adorar a calma, o campo, os passarinhos. Também estou a descobrir com interesse algumas realidades rurais que me passavam um pouco ao lado.
Uma das coisas que me causa espanto é a arquitectura. Aqui as casas não são como na cidade. Primeiro, não há apartamentos, mas moradias. Depois, uma moradia no campo não é a mesma coisa que uma vivenda na cidade.
Eu explico:
O aspecto exterior: há dois tipos de moradias; as que se assemelham a uma peça de lego quadrada e as que se parecem com duas peças de lego sobrepostas. Não há variações, é o sistema do cubo com um ou dois andares.
As moradias são geralmente rodeadas por um espaço exterior que, na cidade, se chama jardim. O tamanho varia; quando é grande, plantam uma horta; quando é muito grande, plantam batatas; quando é pequeno, ladrilham com pedra mármore ou cimento! Raramente há flores e, quando há, têm um aspecto atafulhado, como se alguém tivesse tirado todos os vasos da estufa para limpar, e os tivesse esquecido ali.
Em relação ao interior, as moradias dividem-se em dois tipos: as ricas e as pobres. As pobres, como a minha, têm um ar bardajoso e não há decoração que lho tire. Exemplifico: vi uma casa cujos interruptores eléctricos tinham sido pintados juntamente com o resto da parede. Quando a tinta secou, os interruptores deixaram de funcionar, mas qual é o problema? Pode-se iluminar a velas ou a petróleo… Outro exemplo, na minha casa não há persianas nem portadas. Para que gastar dinheiro nisso, quando podemos substituir por cortinas que são muito mais baratas? Para terminar: na minha casa, as janelas do lado sul são de alumínio, mas originalmente eram de madeira. Sei disso porque se “esqueceram” de tirar o aro de madeira quando substituíram as janelas. Para quê fazer bem feito, quando se pode fazer mal?
As moradias ditas ricas são ainda mais interessantes. Aqui não faltam bons acabamentos, lareiras, aquecimento central… As cozinhas parecem tiradas de revistas de decoração, com todos os electrodomésticos que possamos imaginar… O ex libris destas casas é a garagem! É a divisão maior (cabe uma frota de carros lá dentro), melhor iluminada e melhor situada da casa. Porquê? - Perguntariam os meus leitores se eu tivesse leitores. Ora a resposta é simples: Porque vivem na garagem!
Verdade, verdadinha que esta gente vive na garagem! Constroem uma espécie de segunda cozinha, muito simples, com os materiais mais baratos que consigam encontrar. Juntam-lhe um sofá velho, a cair de podre, uma televisão e já está. Só vão a casa para dormir. Às vezes, nem para ir à casa de banho vão a casa, já que constroem na garagem um cubículo minúsculo com uma sanita e um lavatório.
Interrogo-me: a que tipo de vivência estão estas pessoas habituadas para que, tendo uma casa que é o expoente máximo dos seus sonhos, vivam na garagem? É para não estragar? É para estar tudo muito limpo e arrumadinho para mostrar às visitas?
Não sei, a ruralidade não cessa de me espantar.

A história do Capuchinho


A Aurora, 5 anos, caracóis em canudos, a criança mais doce da família, tem um livro com a história do Capuchinho Vermelho à moda do antigamente, em que o lobo não só come mesmo a avó, como também come o Capuchinho.
Uma das ilustrações desse livro mostra no cesto da merenda que o Capuchinho leva para a avó, uma garrafa de vinho. Comentário imediato da Aurora: - A tia Magda é que ia gostar do vinho!
Ainda não referi aqui que a minha irmã Magda é alcoólica. Tenciono escrever sobre o que foi para mim crescer com uma alcoólica no papel de mãe, mas em uma outra ocasião.
Quando a Magda a foi visitar, a Aurora correu para ela com o livro.
- Vês, vês, tia? Tu é que gostas de vinho, não é?
- Não, minha querida. Respondeu a minha irmã que, após meia dúzia de anos a frequentar as reuniões dos AA, continua em fase de negação. – A tia já não bebe vinho.
- Pois, é só branco! Disse a Aurora com a simplicidade dos seus 5 anos e a doçura do seu sorriso.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Agora

O dia está mole, abafado, envolto numa neblina que tolhe os movimentos. Oiço os pássaros e os cães lá fora. Bateram à porta. Uma associação de recuperação de toxicodependentes vinha pedir uma contribuição. Não contribuo.
A casa está de pantanas. Pelo de cão por todo o lado. As janelas abertas deixam entrar as moscas.
Cada vez que decido deixar o computador, hesito. Deixo-me ficar mais meia hora, mais um cigarro. A manhã já passou e ainda nem tomei duche! Quando tomar vou ter energia para limpar a casa e organizar a vida.
Decido-me. É desta!

A Mãe Morreu

- A minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos! - Era o que costumava responder quando me pediam para falar de mim. Achava que esse era o factor fundamental dos meus traumas, só muito mais tarde percebi que a morte da minha mãe tinha sido só o princípio de uma longa vivência traumática.
Passei a maior parte da minha infância com a minha irmã mais velha, o meu cunhado e o meu sobrinho.
Nesta fase da narrativa quero abrir um parêntesis para pensar nos nomes com que vou apresentar as pessoas. Não quero tratá-los pelos nomes verdadeiros para proteger a identidade deles. Chamarei à minha irmã mais velha Magda, ao meu cunhado Mouro e ao filho deles Jonas.
Sou a mais nova de 4 irmãs. Quando a minha mãe morreu, todas elas estavam casadas e duas já tinham filhos. Nasci fora de tempo. Fui uma bebé mimada e muito amada. Acho que todo esse mimo ainda tornou mais difícil a mudança para uma realidade tão diferente.