“A vida implica muita dor, e a única dor que podemos evitar é provavelmente a que resulta de tentar evitar a dor.”
R.D. Laing

terça-feira, 26 de maio de 2009

Leio como Respiro

Lembro-me do primeiro livro que li. Chamava-se “Noddy no País dos Brinquedos”. Foi escrito por uma senhora que muito amenizou as agruras da minha infância: Enid Blyton.
Lembro-me de o ler, é uma memória em segunda mão, mas lembro-me. O espanto, a felicidade de conseguir juntar as letras e formar palavras, de deixar de depender das minhas irmãs para me contarem histórias. Tinha acabado a primeira classe e já conseguia ler. A partir desse momento, nunca mais parei.
Não imagino como terias sido a minha vida se os livros não existissem. Quando as coisas estavam negras, quando as situações eram insuportáveis, os livros eram a portas para outros mundos, mundos onde os meus problemas não existiam, onde aconteciam aventuras, onde as histórias acabavam sempre bem.
Se é verdade que a história da minha vida dava um livro, ou mesmo dois ou três, é ainda mais verdade que não teria sobrevivido às histórias da minha vida se não tivesse livros para me consolarem e me transportarem para longe de mim.

Hoje, encontro nos livros personagens, histórias, imaginários, visões do mundo, mas, principalmente, o prazer de ler.

Recentemente uma amiga veio visitar-me e trouxe-me uma mala cheia de livros. É que morar no campo tem os seus inconvenientes, um deles é não ter uma biblioteca perto.
Para quem lê como eu – eu leio como respiro – é impossível pensar em comprar todos os livros que quero ler. Durante anos fui visita assídua da biblioteca mais próxima, agora, dependo dos amigos para me emprestarem livros.
Na mala estava um livro para crianças intitulado “Cão Cabeçudo” de Daniel Pennac. Adorei. Adorei a história, chorei que me fartei. Adorei a relação/visão do senhor Pennac com os cães.
No sábado passado, vim à cidade e uma amiga pediu-me que devolvesse à biblioteca uns livros que ela tinha trazido. Entre eles estava “A Fada Carabina” do senhor Pennac. A edição tinha na capa um desenho que lembrava as ilustrações dos livros infantis. Não resisti. Li-o num dia.
Na segunda-feira (continuo na cidade) fui à biblioteca e trouxer todos os livros que encontrei do Daniel Pennac. Infelizmente só dois. “A Vendedora de Prosa” que li hoje e adorei, e “Excelentíssimas Crianças” que vou ler amanhã, mas já estou a adorar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Crianças

Uma rotina diferente. De manhã, levantar cedo e tratar do pequeno-almoço das crianças. O Rafael cuida de si, eu cuido da Bia. Levo-a à escola. Quando regresso o Rafael já seguiu para o liceu. Faço as camas, lavo a loiça, e tenho o resto do dia para mim, tirando algumas ocasiões em que tenho de fazer compras ou ir à farmácia.
Leio muito. Sou frequentadora assídua da biblioteca municipal.
Pelas 5 e meia vou buscar a Bia à escola. Lanche, jantar, escovar os dentes. Uma história para dormir, leio para a Bia mas o Rafael também gosta de ouvir.
Às 10 horas estão a dormir. Como o Rafael dorme na sala, o meu acesso à casa fica bastante limitado.
Fico no meu quarto com um livro, às vezes com o computador. Sento-me na cama com o computador em cima das pernas. Não é muito cómodo. Desisto. Fumo um cigarro à janela e deito-me com um livro. Amanhã acordo cedo.

domingo, 24 de maio de 2009

A Madrasta (parte I)

A minha madrasta já está reformada. Foi médica de aldeia. De manhã dava consultas no posto médico de T. e à tarde fazia domicílios. De quinta à tarde a sexta de manhã fazia banco nas urgências do hospital de S.
Os doentes traziam-lhe muitos presentes, coisas da terra, da horta, da capoeira. Eram as couves, as alfaces, as batatas, as cenouras, a fruta, as galinhas, os coelhos, o pão cozido no forno de lenha… Quase que dava para governar uma casa sem fazer compras. Felizmente! Porque a minha madrasta odiava gastar dinheiro. Era uma coisa que lhe estava no sangue, gastar dinheiro era ir contra a sua natureza, a evitar a todo o custo.
Ora com tantas ofertas que recebia, quase não tinha de fazer compras, mas faltava o quase… Era nesse quase que a minha madrasta demonstrava o seu espírito criativo.
A manteiga para barrar o pão cozido a lenha, a senhora doutora trazia do hospital, em pacotinhos individuais daqueles que se usam nos restaurantes. Aproveitava e trazia também os pacotinhos de doces, compotas e açúcar. Para quê comprar se, na cantina do hospital, bastava tirar?
Em relação ao papel higiénico, esta senhora revelava possuir, não só criatividade, mas uma enorme paciência. Nas casas de banho do hospital e do posto médico, fazia rolinhos de papel higiénico com os quais fornecia as casas de banho da sua própria casa. Qualquer outra pessoa tiraria umas mãos cheias de folhas de papel que amarfanharia dentro da mala, mas a minha madrasta era uma profissional; fazia uns rolinhos muito certinhos e apertados.
O dinheiro que ela ganhava a trabalhar no hospital, não sei, mas poupar, poupava imenso.
O hospital também resolvia a questão dos banhos. Era com a água quente do hospital que ela e eu tomávamos o nosso banho semanal. Semanal, sim, pensam o quê? A água custa dinheiro, e o gás ainda mais. Um banho por semana e já tinha muita sorte, se não fosse o hospital havia de lavar-me com água fria e um pano húmido. Dou graças pelo hospital com a sua casa de banho com chuveiro e água quente e sabonete. Ah, claro que os sabonetes lá de casa também eram fornecidos pelo hospital. Por mais impostos que pague, nunca poderei retribuir o que o Serviço Nacional de Saúde fez por mim quando era criança.

Amor

Foi na época do apartheid. Lembro-me de desejar ser feiticeira e fazer um feitiço anti-racismo; todos os filhos de brancos nasceriam negros, e os filhos de negros nasceriam brancos.
Hoje li um texto lindíssimo que a Isabela publicou no seu blogue em que deseja que os humanos tenham crias de outras raças e que seres de outras raças tenham crias humanas. A ideia comove-me. Não quero saber de pormenores técnicos absurdos, este é o mundo das maravilhas, e a maravilha do mundo é o amor.
Chamem-me lírica, ingénua, parva… A minha convicção é profunda: o amor é a única via. A via para o respeito, para a dignidade, para a compreensão, para a felicidade…
Não é por acaso que os gurus e profetas de todos os tempos têm tentado encaminhar a humanidade para a via do amor. Infelizmente sem sucesso! Quando disseram “amai-vos uns aos outros”, os homens debateram-se com a questão de quem eram os “uns’ e quem seriam os “outros” e esqueceram-se do amor. É que o amor elimina a fronteira entre uns e outros, reunindo todos num único “nós”.
Eu, que sou individualista até à medula, adoro a ideia de “nós”. Quando nós formos todas as pessoas, todas as raças, todos os credos, todos os seres…

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Penetrocentrismo


Estava eu a fazer a ronda pelos meus blogues favoritos, quando encontrei esta palavra. Penetrocentrismo. Pesquisei no Google e deparei-me com um texto muito interessante.
Ainda sobre sexo, na revista Pública de 17 de Maio, numa entrevista em que Isabel Leal diz que ter orgasmos dá uma “trabalheira desgraçada”, encontrei outra palavra que me ficou no ouvido: orgásmicas. Cito: “Há mulheres que não são orgásmicas.”
Encantada como estou com estas palavras, não resisto a declarar: sou imensamente orgásmica, mas os parceiros penetrocentristas aniquilam o todo o meu potencial orgástico e deixam-me indiferente. Digo mais: prefiro masturbar-me a lidar com o penetrocentrismo de alguns parceiros.
Sinto que realizei o meu objectivo: em menos de três parágrafos consegui utilizar as palavras penetrocentrismo e orgásmica um porradão de vezes!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Horta

Quando me mudei para o campo, decidi fazer uma horta.
Comprei sementes e tudo e mais alguma coisa, desde melões a flores. Semeei em pequenos recipientes e em tabuleiros, com uma camada rasa de terra ou com algodão húmido.
Alegrei-me com a velocidade com que os agriões cresciam. Esqueci-me os nomes das sementes que plantei.
Veio a chuva e arrasou com quase tudo.
Sobreviveram as beterrabas, as courgettes, os pepinos, o feijão e o grão.
Assim que a chuva parou, achei que era altura de plantar na terra. Queria plantar uma horta bonita, com os carreirinhos bem alinhados, daquelas que dá gosto ver. Tentei. O resultado foi uma horta mal amanhada e sem carreiros definidos. Mas, para já, as plantas não morreram, alguns feijoeiros até cresceram bastante.
Amanhã vou plantar na terra as cenouras e o alho francês.
Cá para mim, esta horta ainda vai dar frutos, perdão, legumes!

Iami

Massa folhada muito estaladiça, espinafres, chevre e mozzarella. Uma delícia. Se continuo a cozinhar assim chego aos 100kg não tarda!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Família

marcha do Dia do Animal, 2008
Há tempos atrás discutia-se a suspeita de um primo toxicodependente abusar sexualmente de uma faz filhas. Muito em segredo, “não digas à outra que te contei”, “não contes a ninguém”…
Os zunzuns pararam quando nos apercebemos que a criança tinha uma grande imaginação e misturava histórias da televisão com as da vida. Ainda bem.
Por essa altura, a minha irmã Josefa fez um comentário que nunca esqueci. Tinha lido não sei onde que a família nos proporciona a experiência de lidar com pessoas com quem nunca nos relacionaríamos se não fossem da família, claro está!
Por exemplo, esse meu primo, mesmo não sendo um abusador sexual, que acredito que não é, não tem interesse nenhum como pessoa. É básico, elementar, trabalho-casa-casa-trabalho, não dá duas para a caixa. Encontramo-nos nas festas de aniversário e de Natal. Pergunto-lhe como está e diz sempre que está bem, mesmo quando o corpo e os olhos mostram os estragos da droga. Digo-lhe que se cuide e desejo-o sinceramente mas não serve de nada e a nossa conversa fica por aí.

A minha paixão de vida (os animais) proporcionou-me uma nova família. Chamo família por causa do comentário da Josefa, são pessoas com nunca escolheria relacionar-me, faço-o apenas porque partilhamos a mesma paixão. Somos aqueles (principalmente aquelas) que transportamos água e ração para cão na bagageira do carro, latas de comida para gato nas malas, biscoitos para cão nos bolsos.
Nesta nova família fiz alguns amigos, pessoas com quem tenho em comum alguns aspectos como idade, nível socioeconómico, nível cultural... Também conheci pessoas nos antípodas de mim; tias da Lapa, mulheres de chinela no pé, senhores professores doutores, moradores do bairro da Belavista em Setúbal…Encontramo-nos e falamos dos bichos, trocamos emails com fotos de animais em risco, combinamos ir buscar um cão ali ou entregar um gato acolá. Funcionamos. Colaboramos. Resolvemos situações.
Eu gosto, sinto-me bem, principalmente, sinto-me grata pela oportunidade de me relacionar com pessoas que nunca escolheria para o meu círculo de amizades.

domingo, 17 de maio de 2009

Magda e Mouro - o casamento


Discutiam.
Todas as manhãs de segunda a sexta, a mesma discussão.
– Que camisa visto hoje? Perguntava ele.
– A azul
- Porquê a azul? E se me apetecer vestir a branca, ou a outra das risquinhas?
Eu permanecia deitada e sabia porquê. Ela levantava-se mais cedo para passar a ferro a roupa que levariam para o emprego. Passava uma camisa para ele, uma blusa para ela.
A discussão de todos os dias começava na camisa. Era sempre o mesmo. Eu achava que ele queria ter muitas camisas engomadas, penduradas no roupeiro, à disposição, prontas para serem escolhidas e vestidas. Não compreendia porque ela não lhe respondia
- Olha, passa tu as tuas camisas, que eu tenho mais que fazer. Tenho de dar o pequeno-almoço às crianças, vesti-las e levá-las lá a baixo até a carrinha do infantário chegar.
Mas nessa altura as coisas não eram assim. Quando chegavam a casa, ao fim do dia, ele sentava-se na sala a ler o jornal ou a ver televisão. Ela ia para a cozinha tratar do jantar.
- Porque é que o jantar é arroz? – Ele nunca queria arroz, não gostava de arroz, queria batatas fritas. Ela estava cansada e não queria fritar batatas. Queria despachar-se, acabar com os afazeres e meter-se na cama. Cozia batatas e ele perguntava:
- Batatas cozidas? Outra vez? Porque é que fazes sempre batatas cozidas?
Mais tarde, teria eu 12 ou 13 anos, havia mais dinheiro e vinha uma vizinha durante a tarde fazer o jantar. Eu arrumava a casa, fazia as camas, despejava os cinzeiros, tratava das compras.
Ela chegava e dizia:
- Estou mal disposta. Dói-me a cabeça. Nem quero jantar, vou já para a cama.
Depois:
- Se me trouxesses um pratinho de sopa num tabuleiro… só para não tomar os comprimidos com o estômago vazio…
Depois:
- A sopa soube-me bem. Se me fizesses uma sandezinha… ou talvez um pratinho dessa carne à jardineira que cheira tão bem…
Eu fazia. Levava-lhe aliviada por não estarem a discutir. Só queria despachar-me, acabar com os afazeres domésticos e refugiar-me no meu quarto a ler ou a escrever.
Acho que foi por essa altura que ela começou a tomar comprimidos. Não tenho a certeza, a minha visão das coisas era infantil e desfocada.

O Blogue


Um amigo dizia-me “tenho um blogue, vai lá ver…” mas eu não ia. Não sei porquê não se me dava para lá ir, lê-lo, logo a ele que escreve tão bem. A cena dos blogues não me entrava.
Mais tarde, descobri o “Mundo Perfeito” e tornei-me leitora assídua. A Isabel é uma excelente escritora e lê-la melhorava os meus dias. Comecei a compreender a “cena dos blogues” mas sem vontade de ir mais longe que o “Mundo Perfeito”, esse chegava-me.
Ainda mais tarde, uma amiga disse-me “devias ter um blogue para divulgares o teu trabalho e angariares mais clientes. Eu crio-to.” E criou.
Resolvi dar a esse blogue um carácter dinâmico e intimista, que ultrapassasse o aspecto meramente profissional. Tem sido um êxito. Tenho mais leitores que alguma vez imaginei ter. Além disso recebo comentários muito estimulantes. Está a ser uma experiência muitíssimo gratificante.
Ganhei vontade de escrever, de partilhar o que se passa na minha cabeça, na minha vida… Uma vez que esse blogue se cinge apenas a aspectos da minha profissão, criei o “nomes de mim”, blogue anónimo, onde sinto a liberdade de dizer tudo o que me dá na gana.
Não tenho leitores, é verdade, mas não faz mal, tenho mais liberdade ainda!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

“Se o teu cão pensa que és o maior, não procures uma segunda opinião”

Esta frase surgiu num email que recebi e deixou-me a pensar.
O facto de viver rodeada de cães, que acham que sou “a maior”, tem sido extremamente benéfico para a minha auto-estima!
Confesso que anos e anos de psicoterapia ajudaram, mas os cães…os cães adoram-me gratuitamente durante todas as horas do dia, toda a semana, sem feriados nem férias! Não há psicoterapeuta que lhes chegue aos calcanhares!

Uma auto-estima saudável é fundamental para relações saudáveis. Não preciso de tentar agradar a ninguém porque não sinto necessidade que gostem de mim – já tenho os cães. Depois, àqueles que gostam exijo um amor igualmente puro e sem limites: que gostem de mim como sou sem esperarem receber nada em troca. Não é que não dê, é só para não estarem à espera porque até posso não dar!

Outra vantagem de viver com cães, que me massajam o ego constantemente, é que estou muito mais assertiva nas minhas relações. Digo o que quero e como quero. Se a resposta for negativa, não me magoa nem me preocupa. Aguento muito bem meia dúzia de “nãos” por dia, porque tenho centenas de “sins” constantemente no olhar dos meus cães!

O vírus H1N1 ou a Teoria da Conspiração

http://www.youtube.com/watch?v=0K2LdGUca9w
(Ver vídeo)

Segundo este vídeo, (e se pesquisarmos há mais vídeos com conteúdos convergentes) o vírus do gripe A foi produzido em laboratório e está a ser disseminado no mundo com vista ao enriquecimento desmesurado de produtores de vacinas.
Sei que há sempre uma teoria da conspiração atrás de cada desgraça que acontece e poderia ser tentada a não dar importância a esta comunicação, mas… sei também que a realidade supera a imaginação e não me custa acreditar que um fortíssimo lobby farmacêutico não tenha pejo em causar uma mortandade bestial só para enriquecer desmesuradamente.
Este é o mundo em que vivemos. Este é o mundo que construímos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Telejornal ou as cuequinhas da aluna da escola de Fernão Ferro


Todas as noites tento assistir ao telejornal, mas não consigo fazê-lo por mais de cinco minutos. As notícias entediam-me, não há volta a dar.
Hoje, numa das minhas tentativas quotidianas, ouvi uma notícia que me espantou: a escola secundária de Fernão Ferro recomenda aos alunos que se vistam com decoro, nomeadamente que não usem grandes decotes, tops curtos e mini saias. Acrescentam ainda que a associação de pais está de acordo com estas recomendações. Ao que parece, alguns professores sentiam-se incomodados por ver as cuequinhas das alunas que usavam mini-saia. Uma funcionária chegou ao ponto de pedir a uma aluna que trocasse o top (demasiado reduzido) por uma t-shirt.
É por notícias assim que diariamente continuo a tentar assistir ao telejornal!

Gripe A

«A única coisa que se pode dizer com certeza sobre os vírus da gripe é que eles são inteiramente imprevisíveis» Margaret Chan, Directora-Geral da OMS

terça-feira, 12 de maio de 2009

O Vizinho


O cão passou a noite a uivar e a ganir. Eu estava duplamente desesperada; desesperada com os uivos do cão que não conseguia calar, desesperada por incomodar a vizinhança. Do andar de cima chegava-me o som de qualquer coisa a bater no chão a cada gemido do cão.
Comecei o dia a deitar na caixa de correio do andar de cima um bilhete de desculpas. À noite o vizinho chamou-me ao portão. Vinha pedir desculpas pelas batiditas no chão. Ai que vizinho! Além de bonitão e charmoso é simpático! E gosta de cães!
Se a vida fosse um livro, de certeza que ia ter um romance com o vizinho. Se fosse um filme (daqueles que passam na televisão ao fim de semana), havíamos de casar e ser felizes para sempre.
Mas como a vida é só vida, ele tem uma senhora cujo sono é sagrado, e por isso é que bateu no chão, mas está arrependida e pede desculpa.

Chicken-a-la-Carte

http://www.cultureunplugged.com/play/1081/Chicken-a-la-Carte

Esta história não é sobre mim. É uma história sobre nós os que vivemos deste lado do mundo, os que somos ensinados a perpetuar os gestos sem nos interrogarmos sobre o seu significado, os que fintamos a morte e não compreendemos a vida, os que não vivemos!
Este é um filme sobre comida. Todos comemos, mas nem todos comemos da mesma maneira. Muitos de nós nunca se questionaram sobre a maneira como comemos, o que comemos. Apenas perpetuamos os hábitos alimentares dos nossos pais.
Somos perpetuadores. Não questionamos a vida, os gestos, os hábitos… É uma pena!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A realidade da ex-dependência

A ex-dependência não existe. Uma vez dependente, dependente para toda a vida!
Aprendi muito com os AA. Não que alguma vez tenha frequentado, porque não é o álcool a minha dependência. Mas, há muitos anos, estava a Magda sóbria há dois anos, os AA realizaram uma reunião internacional no Algarve. A Magda foi e convidou-me e a outra irmã nossa a acompanhá-la.
Adorei esse fim-de-semana. Ficámos instaladas no hotel onde se realizava o encontro. Havia reuniões de AA, algumas abertas a não alcoólicos, reuniões de famílias de alcoólicos e, o que gostei mais, as conversas informais entre as pessoas que se cruzavam no hotel ou que se sentavam à mesma mesa às refeições.
Eram conversas cheias de significado. Havia um ambiente que permitia a pessoas que não se conheciam de lado nenhum falar sobre a sua intimidade, partilhar a experiência da recuperação ou a experiência do convívio com alcoólicos.
Lembro-me de um senhor que me disse que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
Nessa altura, vivia profundamente mergulhada na minha doença: a dependência de relações. Li um livro sobre isso chamado “Amar Demais”. É um nome bonito para chamar a uma coisa feia.
Esse livro mudou a minha vida no sentido que foi o primeiro passo do meu processo de cura. Quando percebi que o que se passava comigo, não se passava só comigo, que era uma doença, que tinha um nome, que tinha uma cura… foi uma alegria tão grande!
Atirei-me para a recuperação com quantas forças tinha. Foi difícil, doeu muito, mas senti sempre que a dor era insignificante quando comparada à liberdade que ganhava a cada passo.
Foram anos de psicoterapia. Aprendi muito. Percebi que nunca poderia mudar o meu passado, mas estava nas minhas mãos decidir o meu presente.
Desde essa época até hoje, a minha vida mudou radicalmente. O mais importante: eu mudei. Não há cura sem mudança. Esta é a lição principal de qualquer recuperação.

domingo, 10 de maio de 2009

Domingo à Tarde

Há muitos anos, li um livro chamado “Domingo à Tarde” sobre alguém que estava a morrer. A narrativa era percorrida por uma sensação de tempo suspenso e tristeza.
Ao longo da minha vida, tive muitas vezes essa sensação. Principalmente quando era criança e ia passar o fim-de-semana com as minhas irmãs, ao domingo à tarde sentia a tristeza da antecipação do momento em que voltaria para casa do meu pai e da minha madrasta.
Mais tarde senti o mesmo com o meu filho, antes do processo de adopção ser iniciado, quando ele ainda estava no orfanato e vinha passar os fins-de-semana comigo. Ao domingo, depois do almoço, a expressão dele fechava-se, os olhos perdiam o brilho, e eu sabia muito bem o que ele estava a sentir.
Hoje sinto saudades do meu filho. O processo de adopção já foi concluído, as traquinices da infância já passaram há tanto tempo que já lhes consigo achar graça. As crises da adolescência já pertencem ao passado. Ele cresceu, foi para a Marinha e sinto a falta dele.

Fumar


Fumo desde os 14 anos. Claro que, na altura, não fumava como uma besta como fumo hoje. Era um cigarrito por dia, às escondidas, às vezes nem isso.
Tinha decidido que quando fizesse 10 anos de fumo, deixaria de fumar, mas aos 24 estava tão viciada que nem tentei. Não quer dizer que não tenha tentado deixar de fumar algumas vezes, cheguei a estar mais de 3 dias sem fumo, mas sempre a pensar no cigarro. Cada vez que tentava descobria que toda a minha vida se desenvolvia à volta do acto e fumar. Se vou começar a fazer alguma coisa, acendo um cigarro. Se estou a fazer alguma coisa, faço um intervalo para fumar um cigarro. Se acabo de fazer alguma coisa, acendo mais um cigarro enquanto penso o que vou fazer a seguir.
Claro que não subo mais de três degraus sem arfar, por vezes, fico a arfar mesmo sem subir nenhum degrau. Uma vez tive que subir até a um oitavo andar porque o elevador estava avariado e achei que ia morrer! Quando atendo o telefone, as pessoas perguntam-me se vim a correr. Também há aqueles que dizem que tenho uma voz muito sexy e que devia trabalhar nas linhas eróticas.
A última vez que deixei de fumar estava doente com uma gripe de tal modo forte que… nem conseguia fumar!
É um suicídio. Com excesso de peso, hiper tensão arterial, asma, bronquite crónica, fumar é um suicídio. Ainda para mais um suicídio estúpido; tenho a certeza que há maneiras mais interessantes de uma pessoa se matar.
Decidi deixar de fumar. Optei pelo método da hipnose, porque me parece o mais fácil. Pesquisei “deixar de fumar” e “hipnose” na internet e telefonei para os vários gabinetes para saber mais informações. Tive de fazer um esforço imenso para não acender um cigarro enquanto falava ao telefone. Mas está decidido e está marcado. Na próxima sexta-feira, deixo de fumar.

Touradas

Com toda a polémica que está a acontecer sobre as touradas, quero esclarecer: não sou contra as touradas, sou contra a utilização de touros, cavalos e, já agora, quaisquer outros animais (não racionais) nas touradas!

sábado, 9 de maio de 2009

Arquitecturas


Moro numa aldeia. Depois de 40 anos a viver na cidade, mudei-me para cá no início de Março. Estou a adorar a calma, o campo, os passarinhos. Também estou a descobrir com interesse algumas realidades rurais que me passavam um pouco ao lado.
Uma das coisas que me causa espanto é a arquitectura. Aqui as casas não são como na cidade. Primeiro, não há apartamentos, mas moradias. Depois, uma moradia no campo não é a mesma coisa que uma vivenda na cidade.
Eu explico:
O aspecto exterior: há dois tipos de moradias; as que se assemelham a uma peça de lego quadrada e as que se parecem com duas peças de lego sobrepostas. Não há variações, é o sistema do cubo com um ou dois andares.
As moradias são geralmente rodeadas por um espaço exterior que, na cidade, se chama jardim. O tamanho varia; quando é grande, plantam uma horta; quando é muito grande, plantam batatas; quando é pequeno, ladrilham com pedra mármore ou cimento! Raramente há flores e, quando há, têm um aspecto atafulhado, como se alguém tivesse tirado todos os vasos da estufa para limpar, e os tivesse esquecido ali.
Em relação ao interior, as moradias dividem-se em dois tipos: as ricas e as pobres. As pobres, como a minha, têm um ar bardajoso e não há decoração que lho tire. Exemplifico: vi uma casa cujos interruptores eléctricos tinham sido pintados juntamente com o resto da parede. Quando a tinta secou, os interruptores deixaram de funcionar, mas qual é o problema? Pode-se iluminar a velas ou a petróleo… Outro exemplo, na minha casa não há persianas nem portadas. Para que gastar dinheiro nisso, quando podemos substituir por cortinas que são muito mais baratas? Para terminar: na minha casa, as janelas do lado sul são de alumínio, mas originalmente eram de madeira. Sei disso porque se “esqueceram” de tirar o aro de madeira quando substituíram as janelas. Para quê fazer bem feito, quando se pode fazer mal?
As moradias ditas ricas são ainda mais interessantes. Aqui não faltam bons acabamentos, lareiras, aquecimento central… As cozinhas parecem tiradas de revistas de decoração, com todos os electrodomésticos que possamos imaginar… O ex libris destas casas é a garagem! É a divisão maior (cabe uma frota de carros lá dentro), melhor iluminada e melhor situada da casa. Porquê? - Perguntariam os meus leitores se eu tivesse leitores. Ora a resposta é simples: Porque vivem na garagem!
Verdade, verdadinha que esta gente vive na garagem! Constroem uma espécie de segunda cozinha, muito simples, com os materiais mais baratos que consigam encontrar. Juntam-lhe um sofá velho, a cair de podre, uma televisão e já está. Só vão a casa para dormir. Às vezes, nem para ir à casa de banho vão a casa, já que constroem na garagem um cubículo minúsculo com uma sanita e um lavatório.
Interrogo-me: a que tipo de vivência estão estas pessoas habituadas para que, tendo uma casa que é o expoente máximo dos seus sonhos, vivam na garagem? É para não estragar? É para estar tudo muito limpo e arrumadinho para mostrar às visitas?
Não sei, a ruralidade não cessa de me espantar.

A história do Capuchinho


A Aurora, 5 anos, caracóis em canudos, a criança mais doce da família, tem um livro com a história do Capuchinho Vermelho à moda do antigamente, em que o lobo não só come mesmo a avó, como também come o Capuchinho.
Uma das ilustrações desse livro mostra no cesto da merenda que o Capuchinho leva para a avó, uma garrafa de vinho. Comentário imediato da Aurora: - A tia Magda é que ia gostar do vinho!
Ainda não referi aqui que a minha irmã Magda é alcoólica. Tenciono escrever sobre o que foi para mim crescer com uma alcoólica no papel de mãe, mas em uma outra ocasião.
Quando a Magda a foi visitar, a Aurora correu para ela com o livro.
- Vês, vês, tia? Tu é que gostas de vinho, não é?
- Não, minha querida. Respondeu a minha irmã que, após meia dúzia de anos a frequentar as reuniões dos AA, continua em fase de negação. – A tia já não bebe vinho.
- Pois, é só branco! Disse a Aurora com a simplicidade dos seus 5 anos e a doçura do seu sorriso.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Agora

O dia está mole, abafado, envolto numa neblina que tolhe os movimentos. Oiço os pássaros e os cães lá fora. Bateram à porta. Uma associação de recuperação de toxicodependentes vinha pedir uma contribuição. Não contribuo.
A casa está de pantanas. Pelo de cão por todo o lado. As janelas abertas deixam entrar as moscas.
Cada vez que decido deixar o computador, hesito. Deixo-me ficar mais meia hora, mais um cigarro. A manhã já passou e ainda nem tomei duche! Quando tomar vou ter energia para limpar a casa e organizar a vida.
Decido-me. É desta!

A Mãe Morreu

- A minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos! - Era o que costumava responder quando me pediam para falar de mim. Achava que esse era o factor fundamental dos meus traumas, só muito mais tarde percebi que a morte da minha mãe tinha sido só o princípio de uma longa vivência traumática.
Passei a maior parte da minha infância com a minha irmã mais velha, o meu cunhado e o meu sobrinho.
Nesta fase da narrativa quero abrir um parêntesis para pensar nos nomes com que vou apresentar as pessoas. Não quero tratá-los pelos nomes verdadeiros para proteger a identidade deles. Chamarei à minha irmã mais velha Magda, ao meu cunhado Mouro e ao filho deles Jonas.
Sou a mais nova de 4 irmãs. Quando a minha mãe morreu, todas elas estavam casadas e duas já tinham filhos. Nasci fora de tempo. Fui uma bebé mimada e muito amada. Acho que todo esse mimo ainda tornou mais difícil a mudança para uma realidade tão diferente.