
Discutiam.
Todas as manhãs de segunda a sexta, a mesma discussão.
– Que camisa visto hoje? Perguntava ele.
– A azul
- Porquê a azul? E se me apetecer vestir a branca, ou a outra das risquinhas?
Eu permanecia deitada e sabia porquê. Ela levantava-se mais cedo para passar a ferro a roupa que levariam para o emprego. Passava uma camisa para ele, uma blusa para ela.
A discussão de todos os dias começava na camisa. Era sempre o mesmo. Eu achava que ele queria ter muitas camisas engomadas, penduradas no roupeiro, à disposição, prontas para serem escolhidas e vestidas. Não compreendia porque ela não lhe respondia
- Olha, passa tu as tuas camisas, que eu tenho mais que fazer. Tenho de dar o pequeno-almoço às crianças, vesti-las e levá-las lá a baixo até a carrinha do infantário chegar.
Mas nessa altura as coisas não eram assim. Quando chegavam a casa, ao fim do dia, ele sentava-se na sala a ler o jornal ou a ver televisão. Ela ia para a cozinha tratar do jantar.
- Porque é que o jantar é arroz? – Ele nunca queria arroz, não gostava de arroz, queria batatas fritas. Ela estava cansada e não queria fritar batatas. Queria despachar-se, acabar com os afazeres e meter-se na cama. Cozia batatas e ele perguntava:
- Batatas cozidas? Outra vez? Porque é que fazes sempre batatas cozidas?
Mais tarde, teria eu 12 ou 13 anos, havia mais dinheiro e vinha uma vizinha durante a tarde fazer o jantar. Eu arrumava a casa, fazia as camas, despejava os cinzeiros, tratava das compras.
Ela chegava e dizia:
- Estou mal disposta. Dói-me a cabeça. Nem quero jantar, vou já para a cama.
Depois:
- Se me trouxesses um pratinho de sopa num tabuleiro… só para não tomar os comprimidos com o estômago vazio…
Depois:
- A sopa soube-me bem. Se me fizesses uma sandezinha… ou talvez um pratinho dessa carne à jardineira que cheira tão bem…
Eu fazia. Levava-lhe aliviada por não estarem a discutir. Só queria despachar-me, acabar com os afazeres domésticos e refugiar-me no meu quarto a ler ou a escrever.
Acho que foi por essa altura que ela começou a tomar comprimidos. Não tenho a certeza, a minha visão das coisas era infantil e desfocada.
Todas as manhãs de segunda a sexta, a mesma discussão.
– Que camisa visto hoje? Perguntava ele.
– A azul
- Porquê a azul? E se me apetecer vestir a branca, ou a outra das risquinhas?
Eu permanecia deitada e sabia porquê. Ela levantava-se mais cedo para passar a ferro a roupa que levariam para o emprego. Passava uma camisa para ele, uma blusa para ela.
A discussão de todos os dias começava na camisa. Era sempre o mesmo. Eu achava que ele queria ter muitas camisas engomadas, penduradas no roupeiro, à disposição, prontas para serem escolhidas e vestidas. Não compreendia porque ela não lhe respondia
- Olha, passa tu as tuas camisas, que eu tenho mais que fazer. Tenho de dar o pequeno-almoço às crianças, vesti-las e levá-las lá a baixo até a carrinha do infantário chegar.
Mas nessa altura as coisas não eram assim. Quando chegavam a casa, ao fim do dia, ele sentava-se na sala a ler o jornal ou a ver televisão. Ela ia para a cozinha tratar do jantar.
- Porque é que o jantar é arroz? – Ele nunca queria arroz, não gostava de arroz, queria batatas fritas. Ela estava cansada e não queria fritar batatas. Queria despachar-se, acabar com os afazeres e meter-se na cama. Cozia batatas e ele perguntava:
- Batatas cozidas? Outra vez? Porque é que fazes sempre batatas cozidas?
Mais tarde, teria eu 12 ou 13 anos, havia mais dinheiro e vinha uma vizinha durante a tarde fazer o jantar. Eu arrumava a casa, fazia as camas, despejava os cinzeiros, tratava das compras.
Ela chegava e dizia:
- Estou mal disposta. Dói-me a cabeça. Nem quero jantar, vou já para a cama.
Depois:
- Se me trouxesses um pratinho de sopa num tabuleiro… só para não tomar os comprimidos com o estômago vazio…
Depois:
- A sopa soube-me bem. Se me fizesses uma sandezinha… ou talvez um pratinho dessa carne à jardineira que cheira tão bem…
Eu fazia. Levava-lhe aliviada por não estarem a discutir. Só queria despachar-me, acabar com os afazeres domésticos e refugiar-me no meu quarto a ler ou a escrever.
Acho que foi por essa altura que ela começou a tomar comprimidos. Não tenho a certeza, a minha visão das coisas era infantil e desfocada.
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