
Moro numa aldeia. Depois de 40 anos a viver na cidade, mudei-me para cá no início de Março. Estou a adorar a calma, o campo, os passarinhos. Também estou a descobrir com interesse algumas realidades rurais que me passavam um pouco ao lado.
Uma das coisas que me causa espanto é a arquitectura. Aqui as casas não são como na cidade. Primeiro, não há apartamentos, mas moradias. Depois, uma moradia no campo não é a mesma coisa que uma vivenda na cidade.
Eu explico:
O aspecto exterior: há dois tipos de moradias; as que se assemelham a uma peça de lego quadrada e as que se parecem com duas peças de lego sobrepostas. Não há variações, é o sistema do cubo com um ou dois andares.
As moradias são geralmente rodeadas por um espaço exterior que, na cidade, se chama jardim. O tamanho varia; quando é grande, plantam uma horta; quando é muito grande, plantam batatas; quando é pequeno, ladrilham com pedra mármore ou cimento! Raramente há flores e, quando há, têm um aspecto atafulhado, como se alguém tivesse tirado todos os vasos da estufa para limpar, e os tivesse esquecido ali.
Em relação ao interior, as moradias dividem-se em dois tipos: as ricas e as pobres. As pobres, como a minha, têm um ar bardajoso e não há decoração que lho tire. Exemplifico: vi uma casa cujos interruptores eléctricos tinham sido pintados juntamente com o resto da parede. Quando a tinta secou, os interruptores deixaram de funcionar, mas qual é o problema? Pode-se iluminar a velas ou a petróleo… Outro exemplo, na minha casa não há persianas nem portadas. Para que gastar dinheiro nisso, quando podemos substituir por cortinas que são muito mais baratas? Para terminar: na minha casa, as janelas do lado sul são de alumínio, mas originalmente eram de madeira. Sei disso porque se “esqueceram” de tirar o aro de madeira quando substituíram as janelas. Para quê fazer bem feito, quando se pode fazer mal?
As moradias ditas ricas são ainda mais interessantes. Aqui não faltam bons acabamentos, lareiras, aquecimento central… As cozinhas parecem tiradas de revistas de decoração, com todos os electrodomésticos que possamos imaginar… O ex libris destas casas é a garagem! É a divisão maior (cabe uma frota de carros lá dentro), melhor iluminada e melhor situada da casa. Porquê? - Perguntariam os meus leitores se eu tivesse leitores. Ora a resposta é simples: Porque vivem na garagem!
Verdade, verdadinha que esta gente vive na garagem! Constroem uma espécie de segunda cozinha, muito simples, com os materiais mais baratos que consigam encontrar. Juntam-lhe um sofá velho, a cair de podre, uma televisão e já está. Só vão a casa para dormir. Às vezes, nem para ir à casa de banho vão a casa, já que constroem na garagem um cubículo minúsculo com uma sanita e um lavatório.
Interrogo-me: a que tipo de vivência estão estas pessoas habituadas para que, tendo uma casa que é o expoente máximo dos seus sonhos, vivam na garagem? É para não estragar? É para estar tudo muito limpo e arrumadinho para mostrar às visitas?
Não sei, a ruralidade não cessa de me espantar.
Uma das coisas que me causa espanto é a arquitectura. Aqui as casas não são como na cidade. Primeiro, não há apartamentos, mas moradias. Depois, uma moradia no campo não é a mesma coisa que uma vivenda na cidade.
Eu explico:
O aspecto exterior: há dois tipos de moradias; as que se assemelham a uma peça de lego quadrada e as que se parecem com duas peças de lego sobrepostas. Não há variações, é o sistema do cubo com um ou dois andares.
As moradias são geralmente rodeadas por um espaço exterior que, na cidade, se chama jardim. O tamanho varia; quando é grande, plantam uma horta; quando é muito grande, plantam batatas; quando é pequeno, ladrilham com pedra mármore ou cimento! Raramente há flores e, quando há, têm um aspecto atafulhado, como se alguém tivesse tirado todos os vasos da estufa para limpar, e os tivesse esquecido ali.
Em relação ao interior, as moradias dividem-se em dois tipos: as ricas e as pobres. As pobres, como a minha, têm um ar bardajoso e não há decoração que lho tire. Exemplifico: vi uma casa cujos interruptores eléctricos tinham sido pintados juntamente com o resto da parede. Quando a tinta secou, os interruptores deixaram de funcionar, mas qual é o problema? Pode-se iluminar a velas ou a petróleo… Outro exemplo, na minha casa não há persianas nem portadas. Para que gastar dinheiro nisso, quando podemos substituir por cortinas que são muito mais baratas? Para terminar: na minha casa, as janelas do lado sul são de alumínio, mas originalmente eram de madeira. Sei disso porque se “esqueceram” de tirar o aro de madeira quando substituíram as janelas. Para quê fazer bem feito, quando se pode fazer mal?
As moradias ditas ricas são ainda mais interessantes. Aqui não faltam bons acabamentos, lareiras, aquecimento central… As cozinhas parecem tiradas de revistas de decoração, com todos os electrodomésticos que possamos imaginar… O ex libris destas casas é a garagem! É a divisão maior (cabe uma frota de carros lá dentro), melhor iluminada e melhor situada da casa. Porquê? - Perguntariam os meus leitores se eu tivesse leitores. Ora a resposta é simples: Porque vivem na garagem!
Verdade, verdadinha que esta gente vive na garagem! Constroem uma espécie de segunda cozinha, muito simples, com os materiais mais baratos que consigam encontrar. Juntam-lhe um sofá velho, a cair de podre, uma televisão e já está. Só vão a casa para dormir. Às vezes, nem para ir à casa de banho vão a casa, já que constroem na garagem um cubículo minúsculo com uma sanita e um lavatório.
Interrogo-me: a que tipo de vivência estão estas pessoas habituadas para que, tendo uma casa que é o expoente máximo dos seus sonhos, vivam na garagem? É para não estragar? É para estar tudo muito limpo e arrumadinho para mostrar às visitas?
Não sei, a ruralidade não cessa de me espantar.
2 comentários:
Isso que descreves não é a ruralidade, é a pobreza mental, aa ignorância.
Lá no lugar onde passei a minha adolescência já era assim há vinte anos. Muitos, a maioria, era emigrante, mas os que não tinham saído dali viviam muito assim também. E há outra coisa: o anonimato que as grandes cidades ainda permitem, esvai-se todo no campo. As pessoas ganharam poder de compra mas as mentalidades continuam quase iguais; o melhor mesmo é manter uma certa distância calculada.
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