“A vida implica muita dor, e a única dor que podemos evitar é provavelmente a que resulta de tentar evitar a dor.”
R.D. Laing

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Família

marcha do Dia do Animal, 2008
Há tempos atrás discutia-se a suspeita de um primo toxicodependente abusar sexualmente de uma faz filhas. Muito em segredo, “não digas à outra que te contei”, “não contes a ninguém”…
Os zunzuns pararam quando nos apercebemos que a criança tinha uma grande imaginação e misturava histórias da televisão com as da vida. Ainda bem.
Por essa altura, a minha irmã Josefa fez um comentário que nunca esqueci. Tinha lido não sei onde que a família nos proporciona a experiência de lidar com pessoas com quem nunca nos relacionaríamos se não fossem da família, claro está!
Por exemplo, esse meu primo, mesmo não sendo um abusador sexual, que acredito que não é, não tem interesse nenhum como pessoa. É básico, elementar, trabalho-casa-casa-trabalho, não dá duas para a caixa. Encontramo-nos nas festas de aniversário e de Natal. Pergunto-lhe como está e diz sempre que está bem, mesmo quando o corpo e os olhos mostram os estragos da droga. Digo-lhe que se cuide e desejo-o sinceramente mas não serve de nada e a nossa conversa fica por aí.

A minha paixão de vida (os animais) proporcionou-me uma nova família. Chamo família por causa do comentário da Josefa, são pessoas com nunca escolheria relacionar-me, faço-o apenas porque partilhamos a mesma paixão. Somos aqueles (principalmente aquelas) que transportamos água e ração para cão na bagageira do carro, latas de comida para gato nas malas, biscoitos para cão nos bolsos.
Nesta nova família fiz alguns amigos, pessoas com quem tenho em comum alguns aspectos como idade, nível socioeconómico, nível cultural... Também conheci pessoas nos antípodas de mim; tias da Lapa, mulheres de chinela no pé, senhores professores doutores, moradores do bairro da Belavista em Setúbal…Encontramo-nos e falamos dos bichos, trocamos emails com fotos de animais em risco, combinamos ir buscar um cão ali ou entregar um gato acolá. Funcionamos. Colaboramos. Resolvemos situações.
Eu gosto, sinto-me bem, principalmente, sinto-me grata pela oportunidade de me relacionar com pessoas que nunca escolheria para o meu círculo de amizades.

2 comentários:

Isabela Figueiredo disse...

Este blogue é demasiado bom para permanecer incógnito. Escreves e pensas demasiado bem para teres blogues incógnitos. E eu nunca digo coisas destas a ninguém quando não as sinto como muito verdadeiras, para já porque sou brutalmente exigente com o que se escreve, como se escreve, e com o que o que se pensa nessa escrita.

Anónimo disse...

Vindo de alguém que escreve como tu, um elogio é demasiado bom!