“A vida implica muita dor, e a única dor que podemos evitar é provavelmente a que resulta de tentar evitar a dor.”
R.D. Laing

domingo, 24 de maio de 2009

A Madrasta (parte I)

A minha madrasta já está reformada. Foi médica de aldeia. De manhã dava consultas no posto médico de T. e à tarde fazia domicílios. De quinta à tarde a sexta de manhã fazia banco nas urgências do hospital de S.
Os doentes traziam-lhe muitos presentes, coisas da terra, da horta, da capoeira. Eram as couves, as alfaces, as batatas, as cenouras, a fruta, as galinhas, os coelhos, o pão cozido no forno de lenha… Quase que dava para governar uma casa sem fazer compras. Felizmente! Porque a minha madrasta odiava gastar dinheiro. Era uma coisa que lhe estava no sangue, gastar dinheiro era ir contra a sua natureza, a evitar a todo o custo.
Ora com tantas ofertas que recebia, quase não tinha de fazer compras, mas faltava o quase… Era nesse quase que a minha madrasta demonstrava o seu espírito criativo.
A manteiga para barrar o pão cozido a lenha, a senhora doutora trazia do hospital, em pacotinhos individuais daqueles que se usam nos restaurantes. Aproveitava e trazia também os pacotinhos de doces, compotas e açúcar. Para quê comprar se, na cantina do hospital, bastava tirar?
Em relação ao papel higiénico, esta senhora revelava possuir, não só criatividade, mas uma enorme paciência. Nas casas de banho do hospital e do posto médico, fazia rolinhos de papel higiénico com os quais fornecia as casas de banho da sua própria casa. Qualquer outra pessoa tiraria umas mãos cheias de folhas de papel que amarfanharia dentro da mala, mas a minha madrasta era uma profissional; fazia uns rolinhos muito certinhos e apertados.
O dinheiro que ela ganhava a trabalhar no hospital, não sei, mas poupar, poupava imenso.
O hospital também resolvia a questão dos banhos. Era com a água quente do hospital que ela e eu tomávamos o nosso banho semanal. Semanal, sim, pensam o quê? A água custa dinheiro, e o gás ainda mais. Um banho por semana e já tinha muita sorte, se não fosse o hospital havia de lavar-me com água fria e um pano húmido. Dou graças pelo hospital com a sua casa de banho com chuveiro e água quente e sabonete. Ah, claro que os sabonetes lá de casa também eram fornecidos pelo hospital. Por mais impostos que pague, nunca poderei retribuir o que o Serviço Nacional de Saúde fez por mim quando era criança.

2 comentários:

gab disse...

Parece-me que rematas o texto com humor e gosto disso. De resto a avareza é um sentimento bastante difundido pela espécie humana. É assim. E viva o SNS.

Isabela Figueiredo disse...

Bem, este texto é uma preciosidade. Tu escreves realmente muito bem. Há dor e ironia conjugadas.
Consigo visualizá-la sentada na sanita a fazer os rolinhos e não sei o que pensar dela. Era excesso de zelo ou avareza, realmente. Eu lembro-me de se fazerem estas coisas em Portugal, antigamente, e hoje. E eu ainda guardo os pacotinhos a que tenho direito. Não ando a tirá-los de sítio nenhum, mas se me derem açúcar e não o consumir, trago-o. É uma coisa própria de um povo que foi pobre, que se habituou a viver na pobreza mesmo quado melhorou na vida. E, claro, o Estado nunca prosperou por causa destes parasitas. Nisso, temos de ser sinceros, o que os funcionários públicos dos gabinetes não ganhavam em dinheiro traziam para casa em géneros.